sábado, 16 de junho de 2012

Nação e Identidade: evolução do discurso nacionalista na América Latina


          Claudia Wasserman faz uma análise historiográfica da evolução do discurso nacionalista e identitário na América Latina, buscando compreender em que condições esse discurso é produzido e quais suas repercussões.
            A autora verifica que desde as lutas de independência, no inicio do século XIX, os líderes políticos e a intelectualidade das terras centro e sul-americanas estão entusiasmados com modelos teóricos vindos da Europa e com o sistema republicano norte-americano. O paradigma europeu é evidente nos escritos de Simon Bolívar (como no exemplo analisado em sala de aula, citando Montesquieu num trecho de “Cartas da Jamaica”), San Martin, Hidalgo e tantos outros. A partir daí cria-se, segundo Claudia Wasserman, o primeiro grande problema do novo discurso identitário: a fascinação pelo discurso europeu é excessivamente subjetiva e idealizada; não há uma percepção da realidade a partir da observação atenta e descompromissada, mas uma interpretação romântica da realidade a partir de modelos ideais; isso vai criar, por exemplo, a convicção de que havia no subcontinente a preexistência de uma comunidade nacional culturalmente identificada anterior à luta pela emancipação, e fazer com que se ignore o intenso processo de pulverização do poder central (localismo) e ruralização que se aprofundam a partir das reformas bourbônicas e vai tornar cada vez mais difícil a aproximação entre as diversas regiões, ou a constituição de uma unidade administrativa estável nas antigas unidades coloniais espanholas (WASSERMAN, p. 102-106).
            Os sonhos de produzir uma sociedade a partir de um projeto liberal, que fosse republicana, democrática, igualitária, racional, industriosa, aberta à inovação e ao progresso resultaram, cinquenta anos depois, em sociedades oligárquicas, dominadas por caciques, morosa, cada vez mais desconjuntada, introvertida, sacudida pela inovação e pelas mudanças produtivas, mas sempre manietada por suas tradições coloniais (CAMIN, p. 14).
            Isso vai produzir um discurso historiográfico e político que busca identificar as causas do “fracasso”; são freqüentes as concepções de nações incompletas e revoluções inacabadas. Há intensa frustração pela não implantação de modelos pré-determinados (situação impossível, uma vez que os construtores das nacionalidades européias são burgueses, enquanto nas Américas a emancipação é liderada por latifundiários rurais). Amparados no cientificismo então em voga na Europa, terra, clima e raça serão consideradas como chaves interpretativas das “deformações, desvios e incompletudes” do processo de construção da nação, dando origem a propostas de “branqueamento” da população (imigração de europeus e extermínio dos indígenas) e de rompimento e repúdio aos valores ibéricos (WASSERMAN, p. 106).
            Embora esse discurso determinista sobreviva até época recente, a partir das enormes transformações que ocorrem na sociedade no final do século XIX e inicio do XX surgirá uma nova interpretação historiográfica focada na questão política. Esse novo discurso é concomitante com o período de consolidação de uma aristocracia fundiária baseada em monoculturas para exportação; em defesa de seus interesses, essas oligarquias fundaram as bases institucionais dos estados políticos latino-americanos, eliminando localismos caudilhescos e centralizando a administração. Predominam então os discursos positivistas de manutenção da ordem; apenas a “ordem positiva” vai criar as condições necessárias para o progresso; é nesse ambiente que frutifica o arielismo, com suas idéias de “emancipação mental” e libertação de modelos estrangeiros (RODÓ, p. 300).
            O discurso positivista se propõe a demonstrar “cientificamente” que os povos latino-americanos eram incapazes de realizar princípios liberais e democráticos e justificar os governos oligárquicos como uma necessidade.
            As intensas transformações deste periodo são o tema do texto de José Luis Romero. O que acontece na América Latina é reflexo da Revolução Industrial em andamento na Europa: os centros industriais são repentinamente assaltados por uma demanda cada vez maior por matérias-primas e pela necessidade de abrir mercados consumidores para seus produtos. Essa dinâmica vai atingir a América Latina exatamente nas cidades que se integram à economia mundial: inicialmente as grandes cidades portuárias, e em seguida as regiões produtoras que vão se integrando à rede de ferrovias que se espalham pelo continente. O rápido crescimento dessas cidades vai produzir uma transformação radical da sociedade: as novas oportunidades atraem habitantes das áreas rurais e imigrantes estrangeiros em grande quantidade; surge um espaço de grande mobilidade social que altera o sistema tradicional de relações sociais (ROMERO, p. 295). Parte do velho patriciado rural soube se adaptar aos novos tempos, aliar-se ao capital estrangeiro e ingressar no novo mundo industrial-financeiro; mas o que garantiu a grande dinâmica do processo foi uma classe de pessoas de poucas posses porém livres das limitações dos hábitos tradicionais e que rapidamente se adaptaram ao novo ambiente empreendedor; partindo do pequeno comércio e da prestação de serviços elas foram enxergando as oportunidades oferecidas pelas novas demandas e em pouco tempo constituíram grandes fortunas. Entrava em cena a burguesia urbana; dona do mundo dos negócios, ela logo disputaria com as antigas oligarquias o controle político.
            É nas cidades que vai tomar forma outro importante agente social: o proletariado industrial. Reunidos em grandes grupos nesse novo ambiente coletivo da fábrica, onde prevaleciam relações sociais despersonalizadas (diferente da relação patriarcal predominante no meio rural), eles logo vão construir uma identidade de classe e se organizar para defender seus interesses (ROMERO, p. 307).
            Nesse ambiente de intensa circulação de idéias e mobilidade social nasce uma nova cultura urbana; os hábitos cotidianos se modificam, a ocupação dos espaços se transforma. A burguesia e o proletariado se organizam politicamente e exigem o direito de intervir na vida política do país.
            A contestação do sistema oligárquico é a tônica do novo discurso historiográfico e político; a crítica da intelectualidade latino-americana é agora contra o modelo de capitalismo implantado pelas oligarquias exportadoras (que cria uma relação de dependência e vulnerabilidade às oscilações dos centros produtores estrangeiros) e pela clausura política por eles imposta (WASSERMAN, p. 112).
            A Revolução Mexicana é um retrato vivo desse momento de contestação do modelo republicano oligárquico, analisado no texto de Hector Aguilar Camin/ Lorenzo Meyer: as décadas de dominação do porfirismo são um exemplo clássico do estado a serviço de grandes latifundiários exportadores. Longe de ser um período de crise, é um periodo de intenso desenvolvimento econômico, que vai produzir dois reflexos distintos:
  • Vai acentuar os problemas sociais, na medida em que a expansão dos latifúndios acaba com as pequenas propriedades comunitárias, o rápido surto de crescimento provoca uma inflação que corrói o salário dos trabalhadores e a valorização das terras provocada pela chegada das ferrovias produz uma onde de desapropriação de terras camponesas.
  • O monopólio do poder exercido pela oligarquia ligada a Porfírio Diaz impede a participação política e a ascensão social da nova burguesia urbana e de setores conservadores que foram alijados do poder.
            A contestação ao regime parte de setores conservadores da sociedade, grandes famílias patriarcais e a classe média burguesa que pressionam por maior participação política. È a intransigência do regime porfirista que vai levar à radicalização do movimento. Como analisa brilhantemente Adolfo Gilly, é uma revolução burguesa que vai mobilizar as massas para ter seu apoio (GILLY, p. 40).
            Estruturalmente a Revolução Mexicana ocorre num período de transição entre dois modelos: a república oligárquica, organizada para atender as demandas dos grandes latifúndios exportadores que estavam se expandindo às custas do sistema indígena de propriedade coletiva das terras (CAMIN, p. 16); e a república burguesa que é necessária para atender as demandas da nova classe de industriais que controla a economia (GILLY, p. 27).
            Nesse sentido, embora cheia de especificidades (como a prematura organização política dos camponeses em grupos como os zapatistas, muito anterior à organização do proletariado urbano), a Revolução Mexicana representa um processo de contestação dos governos oligárquicos e sua progressiva substituição por governos burgueses que ocorrerá em toda América Latina.
            Estes novos governos trazem um discurso vigorosamente nacionalista e de valorização dos aspectos identitários (WASSERMAN, p. 113). A vida política deslocou-se da reunião de algumas famílias para a praça pública; a entrada das massas na arena política não significou, no entanto, democracia: os novos governos são autocráticos e ditatoriais, mas apoiados em amplo apoio popular, sobretudo das classes urbanas, conquistado por meio de concessões sociais e de políticas estatais paternalistas (ROMERO, p. 327).
            O triunfo da burguesia traz consigo uma nova mentalidade amparada numa filosofia do progresso; tudo que se opunha ao desenvolvimento linear e acelerado do mundo urbano e europeizado era condenável (ROMERO, p. 344). A ascensão social não é mais determinada pelo sangue, mas pelo êxito econômico. Tudo isso abre um fosso enorme entre o mundo urbano e o mundo rural, ainda controlado pelos latifundiários, sem mobilidade social e firmemente identificado com os valores tradicionais do catolicismo; sobretudo à medida que o controle político e econômico se desloca do campo para a cidade (ROMERO, p. 334).
            Na década de 1930 a cidade se afirma cada vez mais como um espaço de pluralidade; deixou de ser um conjunto integrado, como o da sociedade colonial, e afirma-se cada vez mais como uma justaposição de grupos de diferentes mentalidades; a nova sociedade multitudinária quebra o velho sistema de normas e valores. As tensões daí decorrentes vão produzir comparações com a Babel bíblica; é no ambiente urbano que o papel feminino na sociedade é contestado, numa revisão constante do sistema de normas sociais (ROMERO, p. 351).
            O discurso historiográfico reflete estas transformações e o pluralismo: o marximo é incorporado como modelo explicativo e como instrumento de luta política (ao mesmo tempo em que revive o hábito de importar modelos prontos) e se fortalece a defesa da aproximação entre os países latino-americanos, que vai desembocar em iniciativas como a criação da CEPAL.

CAMIN, Hector Aguilar. MEYER, Lorenzo. À sombra da Revolução Mexicana: história mexicana contemporânea, 1910-1989.

GILLY, Adolfo /outros autores. Interpretaciones de la revolucion mexicana.

RODÓ, José Enrique. Ariel (fragmento)

ROMERO, José Luiz. América Latina: as cidades e as idéias

WASSERMAN, Claudia. Percurso Intelectual e Historiográfico da Questão Nacional e Identitária na América Latina: as condições de produção e o processo de repercussão do conhecimento histórico


Isis no mundo romano: uma breve síntese historiográfica



            A proposta do tema é refletir sobre a religiosidade no mundo romano a partir das novas concepções historiográficas, da ênfase no caráter multicultural do Império.
            A historiografia sobre o Império Romano mudou de foco nas últimas décadas: a idéia de uma imposição unilateral de valores culturais a partir do centro (romanização) foi substituída pela percepção de que as trocas culturais entre Roma e as regiões periféricas do império se davam numa via de mão dupla; a constatação de que as províncias não eram tão “romanas” quanto se pensava anteriormente logo levou à percepção de que a própria cultura romana foi profundamente influenciada pelas culturas estrangeiras, alterando sua própria identidade cultural; compreender como as influências estrangeiras mudaram a identidade cultural romana tornou-se imperativo para a compreensão da identidade dessa nova sociedade cosmopolita que é gestada no Mediterrâneo (para um debate sobre Romanização ver Woolf 1998; MacMullan 2000 e Hingley 2005)
            O papel da influência grega nesse contexto é bastante conhecido; a fusão cultural é tão intensa que os estudiosos preferem falar em termos de mundo greco-romano (Guarinello 2010), mas está cada vez mais evidente que o Egito teve um papel de grande destaque dentro da cultura romana; a intensidade da Egiptomania romana é revelada pela grande quantidade de achados arqueológicos e pelas inúmeras referências literárias.
            A deusa Isis sempre foi, direta ou indiretamente, central para o estudo das influências egípcias no mundo romano. O novo paradigma destes estudos (Takács 1995; Versluys 2002; Elsner 2006) revela que Isis transcende o aspecto religioso e faz parte de um processo cultural de interação muito mais amplo, colaborando, por exemplo, na construção da ideologia imperial de Augusto (Versluys 2002; Nilo em Tiber); é necessário, portanto, compreeender toda uma dinâmica que determina a escolha pelos elementos a ser apropriados, como são apropriados e o real significado dos novos elementos construídos, da ressignificação.
            O culto de Isis experimentou uma notável expansão dentro do mundo romano, atingindo os pontos mais distantes do império e penetrando profundamente em todos segmentos da sociedade romana, desde a pessoa do próprio imperador e seu séquito, passando pelas elites, como o demonstram a presença de inúmeras capelas particulares dedicadas ao culto de Isis nas propriedades aristocráticas, em Pompéia e diversas cidades romanas e chegando às classes populares, sobretudo aos escravos (WITT, p.60) .
            A historiografia dos cultos egípcios no periodo romano é relativamente recente. O estudo da religião egípcia desperta grande interesse na Europa a partir da expedição de Napoleão ao Egito (1798) e experifmenta grande impulso a partir da decifração dos hieróglifos (1822); o foco dos estudos, no entanto, é a antiga civilização egípcia, desde as origens até o fim do Novo Império. Sobretudo a partir da helenização (305 aC) há um entendimento de que a cultura egípcia perde a originalidade e torna-se decadente. Nesse contexto a expansão dos cultos egípcios pelo mundo romano é vista como parte do processo de “decadência moral” experimentada pelo império; o estigma negativo que paira sobre os cultos egípcios tem duas origens fundamentais: a tradição histórica cristã (que gira em torno de como o cristianismo derrotou as superstições vigentes na época romana e produziu uma revolução moral a partir daí) e a idealização que os autores iluministas fazem da cultura romana, “pura” no periodo republicano e progressivamente “corrompida” na fase imperial com a chegada dos cultos orientais (Gibon, p. 35).
            O estudo metodológico do sincretismo religioso no Império Romano inicia a partir de 1906 com o historiador e arqueólogo belga Franz-Valéry-Marie Cumont, autor do clássico Les religions orientales dans le paganisme romain. Cumont, no entanto, considera o processo de penetração e assimilação de cultos como o mitraísmo, o judaísmo e os cultos egípcios como uma unidade cultural (religiões orientais) em que as particularidades de cada culto são pouco importantes; o próprio fato de uma mesma pessoa atuar ao mesmo tempo como sacerdote de Isis e de Mitra é citado como prova disso.
            As especificidades dos cultos egípcios no mundo romano passam a ser destacadas a partir da reunião metódica de fontes; em 1922 Theodor Hopfner publicou uma gigantesca coletânea de fontes primárias sobre os cultos egípcios, Fontes Historiae Religionis Aegypticae; e em 1940 um estudo comentado do Isis e Osíris de Plutarco. Reginald E. Witt publica a partir de 1971 uma série de trabalhos sobre o culto de Isis, em especial Isis in the Graeco-Roman World.
            Autores como Witt, Tran Tam Tinh e Françoise Dunand chamam a atenção para a intensidade da penetração de elementos da cultura egípcia no mundo greco-romano, algo ignorado até então. O grande volume de estudos leva à realização da 1ª. Conferência Internacional de Estudos Isíacos (1997, Poitiers, França), evento que ocorre com regularidade desde então (2ª. Em 2002, Lyon; 3ª. Em 2005, Leiden; 4ª. Em 2008, Lyege). A nova geração de estudiosos (Laurent Bricaul, Miguel Versluys e Paul Meyboom) analisa o culto de Isis não apenas do ponto de vista religioso, mas sobretudo como chave interpretativa do intenso processo de apropriação de valores culturais egípcios no mundo romano; a representação da deusa Isis surge não apenas em contextos de culto religioso, mas também como motivo cultural e estilístico que remetem ao imaginário sobre o Egito. Essa interação cultural alcança grande amplitude e influencia comportamentos sociais e a própria dinâmica política. Isis está presente, por exemplo, na construção da ideologia imperial de Augusto; sua associação à figura do imperador (Isis Augusta) é uma clara apropriação do papel original de Isis no contexto egípcio, como protetora do faraó (encarnação e/ou representante de seu filho sagrado, Hórus). Essa poderosa inter-relação Isis/Egito vai levar à proposta de padronizar metodologias de estudo e as terminologias utilizadas (MALAISE, 2005).
            Paralelamente a essa inserção de motivos egípcios na cultura greco-romana ocorre o movimento contrário: o culto isíaco se apropria de elementos próprios da cultura das regiões onde se estabelece; isso afeta não só as representações estéticas, mas sobretudo o próprio corpo doutrinário do culto; um destes temas, em particular, se tornaria um dos principais motivos representados nas pinturas murais dos templos de Isis, atrás apenas do motivo principal, a morte e ressurreição de Osíris: o mito de Io.
            Io é uma princesa grega que desperta a paixão de Zeus; isso atrai a ira de Hera, sua esposa, que a transforma em uma vaca, e sua implacável perseguição a obriga a cruzar os mares e se refugiar no Egito. Cansada de seus sofrimentos, Io suplica a Zeus pela morte. Este, comovido, restitui-lhe a condição humana. O mito, narrado por autores como Esquilo e Ovídio, tem imensa popularidade no mundo grego; em sua honra são nomeados o mar Jônico (mar de Io) e o estreito de Bósforo (que significa “pata de vaca”, em referência ao estado animal de Io). O exílio de Io no Egito produz uma imediata associação com Isis. Na reapropriação do mito observada nas pinturas dos templos é a própria deusa Isis quem, comovida com os sofrimentos de Io, lhe restitui a condição humana. As lamentações de Io são frequentemente associadas aos próprios lamentos de dor de Isis durante a peregrinação para operar a ressurreição de seu marido, e conduz a uma mensagem de profundo significado para o culto: Isis, devido ao próprio sofrimento que experimentou, é especialmente inclinada a sensibilizar-se com o sofrimento humano (BRENCK, 2009); este seria um dos elementos que explicaria a rápida expansão do culto pelo mundo mediterrânico. As representações murais sobre o lamento de Io e o sofrimento de Isis em ambientes domésticos e públicos são muito comuns na Grécia e Roma dos séculos seguintes, a ponto de poderem ter influenciado a forma como Paulo e seus seguidores apresentam na Grécia o sofrimento de Jesus, realizando seus discursos em ambientes decorados com estes motivos (BALCH, 2003).
            A epopéia de Io também serviu de inspiração para um dos textos de apologia de Isis mais conhecidos na literatura romana, o romance Metamorfoses (O Asno de Ouro), de Lucius Apuleio, escrito na segunda metade do século II dC; o mote é praticamente o mesmo: o personagem Lucius é transformado num asno por poderes mágicos; nesse estado passa por uma série de desventuras até que decide apelar a Isis para recuperar sua condição humana.
            O interesse moderno pelo culto de Isis cresceu a partir da sugestão de alguns estudiosos, sobretudo R. E. Witt, de que o culto isíaco sofreu um enorme processo de apropriação por parte do cristianismo, numa escala talvez muito maior do que a sugerida anteriormente, principalmente quando se fala das origens da Mariolatria; o assunto tornou-se ainda mais instigante quando escavações arqueológicas recentes na Campânia e diversas regiões da Europa sugerem uma enorme sobrevida do culto em pleno período cristão, e um recurso à violência em grande escala para destruir os locais públicos de culto à deusa (BRICAULT, 2007).

Bibliografia

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O Feudalismo: um horizonte teórico (sinopse), de Alain Guerreau


         O objetivo do texto é elaborar um esquema do funcionamento-evolução do feudalismo na Europa.
            Há quatro eixos para reflexão:

  • A relação senhores/camponeses.
  • O parentesco artificial, complementar à primeira relação.
  • As coações materiais do sistema (sobretudo o modo de ocupação do solo), determinantes do seu tamanho e das articulações internas.
  • Análise da única instituição que foi do tamanho do sistema: a Igreja, síntese e pedra angular de todo sistema.

1-     A relação de dominium
 É uma relação de poder (sobre a terra e sobre os homens), não de direito (este supõe uma estrutura estatal). Não há conotação econômica no emprego das palavras, mas religiosa (“dominus”, senhor, figura essencialmente no vocabulário eclesiástico).
Não há um termo exclusivo para designar os “camponeses”; eles são designados de acordo com o grau de fixação à terra (agricolae, villani, vicini, coloni, etc.); a ligação dos homens ao solo é o principal elemento das relações de produção feudais. A oposição marxista senhores x camponeses é simplista; a relação é muito mais complexa, polimorfa e plurifuncional, com várias feacetas (econômica, política, parental, religiosa, etc.)

2-     Parentescos artificiais
 O parentesco não tem nada de natural, varia de acordo com a sociedade. O termo medieval “família” pode significar o “conjunto de servos dependentes de um senhor”, um casal ou o conjunto de monges de um mosteiro, entre muitos outros significados.
            A sociedade feudal é baseada na exogamia, e como tal estabelece relações de reciprocidade entre diferentes grupos que pode incluir ajuda material ou militar.
            É muito importante a figura do “padrinho de batismo” (parentesco espiritual), a ponto de chegar a adotar o apadrinhado como filho. São igualmente importantes outras formas de parentesco artificial, como o pertencimento a uma confraria ou fraternidade. O pseudoparentesco, base da estrutura eclesiástica, é mais importante que o parentesco biológico no contexto da sociedade feudal.

3-     O sistema feudal como ecossistema
             Uma das condicionantes mais importantes da agricultura reside nas vicissitudes climáticas, sobretudo o inverno; a ponto de serem as condicionantes das coações sociais (decisões como o que e onde plantar; o que e onde armazenar, etc.).
            Além da taxação sobre os produtores diretos, há duas formas de acumular riquezas: a pilhagem e o comércio. O comércio envolve grande risco, implica na entrega de parte dos lucros aos aristocratas e é contraditório com as bases do sistema feudal (tanto que a ascensão dos comerciantes a uma posição predominante será condição prévia para a implantação de um novo sistema econômico). A guerra, no entanto, é o principal fator de coesão do sistema feudal; a expedição militar é o meio por excelência de tornar efetivos os laços hierárquicos e horizontais. Conquistas territoriais permitem recompensar dependentes fiéis com terras e posições na hierarquia que vão reforçar as estruturas de poder; essas relações são suplementadas com alianças matrimoniais.

4-     A dominação da Igreja
             A Igreja é o cimento que une todas as partes do sistema feudal. Ela exerce controle sobre do tempo, os espaços, os laços de parentesco, o sistema de ensino, os hospitais; isso sem falar na sagração dos reis. Liturgia, teologia e arquitetura religiosa contribuem para a obra de sacralização do sistema feudal.
            Todos os aspectos do sistema feudal europeu são dominados pela Igreja: ao controlar o ensino e o parentesco ela controla sua reprodução; ao estabelecer os fundamentos da relação de dominium, controla as relações de produção.

            Esboço da dinâmica feudal

            Os francos chegam à Gália como resultado da desagregação do sistema romano: desaparecem o comércio, a autoridade pública, o país fragmenta-se em vários domínios.
            A partir de Clóvis prevalece a organização baseada nos princípios tribais germânicos. É a 1ª. lógica feudal: grandes domínios quase autônomos, nas mãos de aristocratas agrupados em confederações muito frouxas baseadas em relações de fidelidade e parentesco.
            É o estreitamento dos laços com a Igreja que vai conferir uma certa coerência ao conjunto. A exogamia vai tornar a sociedade mais homogênea.
            O constante retalhamento dos domínios vai produzir uma anarquia interna que trará duas conseqüências: o fortalecimento da Igreja (que chega ao auge do poder no século XII) e da coesão da aristocracia, que vão levar a partir do século XIII ao nascimento do Estado feudal.
            O feudo, nesse sentido, é uma forma transitória dentro do grande movimento que leva à constituição das monarquias. O novo estado vai produzir conflitos entre os feudos e as novas oligarquias urbanas; a dinâmica própria dos senhores feudais será transmitida aos novos estados, que vivem em guerras (Guerra dos 100 anos, etc.).
            Estabelecidos os grandes domínios feudais, afirma-se a paróquia como marca do novo quadro social espacial; ela será também a célula base da nova estrutura estatal. Do século XIII ao XVIII há um movimento de integração crescente que vai fazer amadurecer as contradições, levar ao desaparecimento das relação de dominium e o aparecimento de mecanismos políticos e de uma forma de estado dominada por uma classe definida por características econômicas.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A crise do moderno conceito de História

     Gostaria de compartilhar com os leitores do blog um interessante artigo do professor Artur Vitorino; ele versa sobre a crise de paradigma que vivemos hoje, quando tudo tornou-se história e todos os referenciais são questionados; de como isso afeta o ensino de história e, o que acredito ser o maior merito do artigo, uma alternativa de solução, a "educação patrimonial ético-humanista".

     O link:

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O Império Romano e sua religiosidade: o exemplo do culto de Isis


Estátua romana de Isis


Sinopse do artigo de Ana Carolina C. Alonso, in NEArco

            Longe de estar focado na expansão territorial, como tradicionalmente se apresenta (a maior expansão ocorreu durante a República), a grande missão do Império foi desenvolver a máquina administrativa, consolidar e manter o território unido.
            Um império tão vasto e com tamanha diversidade cultural exigiu relações de poder que atendessem ao mesmo tempo a elite do império e as necessidades provinciais.
Isso produziu uma flexibilização do que significava “ser romano”; a condição de cidadão, por exemplo, foi progressivamente estendida aos habitantes das províncias, até que se tornou universal (para todos os habitantes livres) em 212 dC. Há igualmente um esforço em integrar símbolos e signos locais à cultura romana. É claro que esse processo tem, além da intencionalidade política e/ou social, um grau expressivo de desdobramentos espontâneos que perfazem o fluxo da história; além disso, a apropriação cultural ocorre de forma bidirecional. Essa percepção alterou significativamente a idéia de romanização; a bidirecionalidade é particularmente perceptível na presença de elementos característicos das províncias nos vestígios materiais da urbe,a despeito da relação assimétrica entre a urbe e a periferia.
            Nesse sentido, uma parte fundamental da formação da identidade romana se dava através da religião; a relação ser humano/divindade é intrinsecamente ligada às relações sociais; termos como religio e supestitio vão ter seus significados seguindo paralelamente com as mudanças sociais de identidade.
            Vários elementos vão atuar como veículo de penetração dos cutlos orientais na sociedade romana: a presença dos escravos, que permanecem fiéis às suas crenças nativas; a permanência das legiões romanas nas províncias por longos períodos e a circulação dos comerciantes, que facilitam o fluxo cultural dentro do império.
            O culto de Isis é distinto de outros cultos praticados em Roma; não é correto considerar as religiões orientais que chegam à Roma como um grupo padronizado com as mesmas características; elas são específicas entre si e diferentes quanto a seus elementos constitutivos.
            Da mesma forma, ao penetrar na urbe e ser ali praticado, o culto passa a se diferenciar substancialmente de seu ancestral oriental.
            Um dos diferenciais entre a religiosidade egípcia e a romana é a noção de templo; para os egípcios o templo é permanentemente sagrado por ser residência de um deus; o povo não adentra todas as dependências do templo, muitas delas são fechadas e de uso exclusivo dos sacerdotes. Rituais constantes são oficiados para conservar os princípios divinos do lugar, e a adoção destes rituais também é uma novidade entre os romanos; os detalhes ritualísticos são descritos por Apuleio e Plutarco, importantes fontes que documentam o entusiasmo que o culto isíaco produziu em Roma.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Influência do Egito antigo na África


 


Nos últimos cinqüenta anos a historiografia caminhou no sentido de reintegrar o Egito antigo ao continente africano; novos estudos reforçaram a idéia de desenvolvimento endógeno da civilização egípcia, ao contrário da idéia tradicional de que os egípcios haviam sido decisivamente influenciados pelos povos da Ásia Menor; isso é sugerido, entre outros elementos, pela lenta evolução local das representações simbólicas que vão levar à escrita hieroglífica; esse processo è anterior ao surgimento da escrita entre os mesopotâmicos.
Muito se tem escrito sobre a influência que os egípcios exerceram sobre as civilizações do mundo mediterrânico e da Ásia Menor, seja no campo cultural ou nas relações políticas e comerciais. Nas últimas décadas os estudiosos têm lançado um pouco de luz sobre o até agora pouco conhecido universo das relações entre os antigos egípcios e as civilizações africanas. Há dois eixos principais de contato: à Oeste, com os povos errantes do Saara líbio, e no sul, com as civilizações nilóticas da Núbia.

Pirâmides em Méroe, Núbia

A região conhecida como Núbia estende-se de Cartum até Assua e recebeu este nome devido às minas de ouro. A Núbia tem vestígios de civilizações tão antigas quanto o Egito e que estariam realizando uma troca contínua de influências; os egípcios vão controlar a região por volta de 1500 aC, mas a Núbia vai voltar a se tornar independente e lá vai se formar o reino de Cuxe, ou Cushita, com capital em Napata. No século VIII aC são os cuxitas que vão controlar parte do Egito, chegando até Elefantina e Tebas.
A partir do século III aC a capital do reino foi transferida para Meróe, mais ao sul; o reino meroíta chegou a controlar todo o Egito, e uma dinastia de faraós núbios foi estabelecida pouco antes da invasão assíria, em 671 aC. Os reinos núbios são citados na Bíblia e por autores gregos e romanos, como Diodoro Sículo.
Os meroítas desenvolveram uma escrita própria a partir dos hieróglifos egípcios, ainda não decifrada; há em Meróe pirâmides e templos que indicam claramente a influência da arquitetura e da religiosidade egípcias. O reino de Meróe teria se desenvolvido como um importante eixo de rotas comerciais da antiguidade, funcionando como importante ponto de encontro entre o Egito, ao norte, com o reino de Axum, ao sul, os portos do Mar Vermelho ao leste e os povos subsaarianos a oeste. A atual Etiópia, colonizada inicialmente pelos árabes, recebe desde cedo influência meroítica e egípcia; o reino de Axum, formado no 1º. Século dC, vai conquistar a região de Meróe a partir do século IV. Os portos do mar Vermelho são freqüentados por navios egípcios com destino ao Punt, normalmente situado na região da atual Somália; expedições ao Punt em busca de produtos como marfim, incenso, mirra e perfumes são relatadas nos períodos dos faraós Sahuré (2487 – 2475 aC), Hatshepsut (séc. XV aC) e Ramsés III (1194 – 1163 aC). Portanto, a cultura egípcia (sua escrita, estilo arquitetônico, organização política, religiosidade) chega à Núbia e Etiópia desde remota antiguidade; as relações comerciais vão chegar até o Chifre da África.
O ponto mais polêmico do alcance da influência egípcia na África está a oeste do eixo meroítico: rotas comerciais ligando a região da Nigéria à Núbia são consideradas prováveis desde os tempos dos ptolomeus e certas a partir da época cristã. Contatos anteriores são ainda hipotéticos, faltam evidências arqueológicas; peças egípcias encontradas em regiões remotas da África, como uma estatueta de Osíris encontrada no Congo, são ainda absolutamente inconclusivas; há ainda muita especulação sobre a questão da origem dos diferentes centros de metalurgia do ferro na África; em Méroe, por exemplo, o ferro é trabalhado desde o século IV aC; também é sugerida uma possível origem nigeriana para o estanho utilizado no antigo Egito. Teses difusionistas sugerem uma origem egípcia para o apoio de cabeça utilizado pelos povos do ocidente africano.
É igualmente certo que as regiões onde hoje ficam Daomé, Gana e Nigéria abrigaram civilizações muito antigas e ainda pouco estudadas, embora o que seja conhecido até agora sugira um alto grau de desenvolvimento espontâneo; a chamada cultura Nok, por exemplo, floresceu entre 500 aC e 300 dC e conheceu a metalurgia de ferro; suas peças de terracota indicam uma cultura com alto grau de originalidade.
Há ainda o intenso debate acerca das possibilidades de a religiosidade egípcia haver influenciado as culturas locais: diversas similaridades entre os cultos, inclusive entre expressões religiosas (Obeah, por exemplo, viria do egípcio Ob ou Aub) são sugeridas como provas por alguns. O que pode se afirmar com seguranças é que povos nômades como os blêmios eram comprovadamente seguidores de Isis, vivendo no oeste da Núbia do século V dC; ignora-se o que ocorre com esse povo depois; isso basta para que alguns sugiram uma migração para o oeste. Esse tipo de esforço é recebido com profundo ceticismo no mundo acadêmico, mas demonstra um intenso esforço cultural de estabelecer uma ponte entre os cultos do ocidente africano e o Egito; pois o Egito fascina os povos desde remota antiguidade, e nós podemos assistir um processo similar ocorrido na época clássica, um esforço em associar deuses gregos e romanos ao panteão egípcio, e assim se beneficiar de sua respeitável antiguidade. Esse esforço é hoje particularmente intenso entre algumas linhas de cultos afro-brasileiros, e uma das associações mais comuns é de Yemanjá como uma releitura africana de Isis.


 Fenômeno semelhante ocorre, de forma documentada, no segundo eixo de irradiação egípcia, a partir do Saara e do litoral mediterrânico, atingindo povos nômades do deserto como os garamantes; os contatos com os cartagineses, por exemplo, vão produzir um deus púnico claramente identificado com o deus egípcio Amon; trata-se de Baal Hammon.

É interessante observar que há outros períodos mais recentes em que o Egito vai atuar novamente como um importante centro de irradiação de influência, sobretudo em direção à África, e razões pelas quais isso é tão pouco sabido hoje. Por exemplo, o Egito foi um dos mais importantes centros de difusão do cristianismo e de desenvolvimento da mística e do pensamento cristãos nos quatro primeiros séculos de nossa era. Alexandria era um dos bispados mais influentes do Império Romano, não só pela importância da cidade, mas devido a homens como Santo Atanásio (295 – 373 dC), um dos maiores defensores da ortodoxia contra a poderosa heresia ariana; são também do Egito figuras de peso como Orígenes, Clemente, são Cirilo e tantos outros. É em terras egípcias que figuras como santo Antão vão dar origem ao extraordinário movimento do monaquismo cristão, talvez uma das mais identitárias características da religiosidade cristã.
Vão pesar contra o Egito, no entanto, primeiro o fato de ser um importante centro de pensamento gnóstico, mais tarde ferozmente combatido por Roma. E sobretudo a controvérsia em torno da natureza de Cristo que vai levar ao rompimento com Roma a partir do Concilio de Calcedônia (451 dC); o cisma egípcio fez com que as terras do Nilo desaparecessem do horizonte cristão; Roma e Constantinopla se apresentam a partir daí como únicos centros cristãos. Toda a epopéia de disseminação do cristianismo em sua forma monofisita pelas terras da Núbia e da Etiópia (cristianizada a partir do século IV pelo bispo Frumêncio) é praticamente ignorada pelo mundo ocidental.
Aqui, novamente, há controvérsias sobre o real alcance do cristianismo egípcio à oeste: é certo que os reinos núbios de Makuria e Alodia foram cristianizados; seus vizinhos à oeste, vivendo numa imensa região em torno do lago Chade eram os zaghawas, onde vai se formar o Império Kanem (700 – 1376); a difusão do cristianismo entre os zaghawas é provável, embora não haja evidências concretas. Admitida essa possibilidade, porém (é certo que efetuavam trocas comerciais entre si), abre-se um curioso leque de possibilidades: Kanem tinha contato, a oeste, com haussás, iorubas e nagôs; que poderiam, portanto, ter tido algum tipo de remota notícia do cristianismo a partir de comerciantes núbios ou zaghawas. Se tal ocorreu, no entanto, não deixou traços culturais perceptíveis.
Finalmente, o Egito serviu ainda como cabeça de ponte para a expansão árabe pela África do Norte e Península Ibérica, no século VII. O Cairo vai se tornar sede do califado fatímida e um dos mais importantes centros culturais do mundo árabe. A partir do Egito o islamismo vai se expandir pela Núbia (séc. X) e levar à formação do Império Fungi, no século XVI, levando à islamização do Sudão e Chade atuais. As areias que cercam o Nilo foram um dos berços de um original sincretismo entre o monaquismo cristão e as idéias muçulmanas, o sufismo, que vai se espalhar pelo mundo árabe e estimular um grande renascimento cultural e místico entre os séculos XIII e XVI.
Definitivamente, África e Egito não podem ser estudados separadamente; apenas uma perspectiva ampla permite entender toda essa riqueza de contribuições recíprocas.

Bibliografia

KI-ZERBO, Joseph. História Geral da África, vol I. Brasília. UNESCO. 2010
MOKTHAR, Gamal. História Geral da África, vol II. Brasília. UNESCO. 2010
EL FASI, Mohammed. História Geral da África, vol III. Brasília. UNESCO. 2010
NIANE, Djibril Tansir. História Geral da África, vol IV. Brasília. UNESCO. 2010