sábado, 3 de setembro de 2011

As três hegemonias do capitalismo histórico - Giovanni Arrighi (in O Longo Século XX)

             O declínio do poderio mundial norte-americano, a partir de 1970, inicia um debate acadêmico sobre a ascensão e queda de estados hegemônicos; alguns autores buscam identificar similaridades estruturais nas diferentes situações históricas estudadas.
            Hegemonia aqui é entendida como a capacidade de um estado de exercer funções de liderança e governo sobre um sistema de nações soberanas; não se trata de dominação pura e simples, mas de dominação intelectual e moral; as forças de oposição são eliminadas pela coerção e pelo exercício do poder econômico (corrupção, fraude). A hegemonia é também estabelecida a partir de um interesse geral que motive a adesão de estados a uma coalizão.
            As ascensões e declínios de estados hegemônicos não ocorrem num sistema mundial se expandindo independentemente numa estrutura invariável; o sistema mundial se forma e expande baseado em recorrentes reestruturações fundamentais; ascende o estado que aproveita com êxito situações de conflito que levam a um caos sistêmico, generalizando uma demanda por “ordem” e restabelecimento da cooperação interestatal.
            O moderno sistema de governo emergiu da desintegração do sistema da Europa medieval, que consistia numa relação senhor-vassalo, uma mistura de público e privado, mobilidade geográfica do poder e legitimação dada por um corpo comum de leis, religião e costumes. O sistema moderno torna as esferas pública e privada distintas; a jurisdição é claramente demarcada por fronteiras nacionais e está estreitamente associado ao desenvolvimento do capitalismo como sistema de acumulação mundial.
            Este vínculo é tanto contraditório como único: o capitalismo e os estados nacionais surgiram juntos e são inter-dependentes, mas há condições que fazem os capitalistas se oporem à ampliação do poder do estado; enquanto o foco estatal é a aquisição de territórios e o controle de populações, o foco do capitalista é o acúmulo de capitais. O estado usa o controle do capital como meio de adquirir territórios; o capitalista usa o controle do território como meio de acumular capitais. O apoio capitalista ao estado está condicionado ao seu funcionamento como facilitador do acúmulo de capitais. Cita como exemplo China e Europa nos séculos XIV-XV: enquanto o capitalismo é o grande motivador do esforço europeu de adquiri territórios, a China (superior tecnologicamente e muito rica) não tem motivação econômica para ir à Europa.
            A invenção do estado moderno ocorre primeiro nas cidades renascentistas da Itália setentrional. Veneza tem uma oligarquia mercantil que controla o poder estatal, com quatro características básicas:
  1. Sistema capitalista de gestão do estado e da guerra.
  2. Equilíbrio de poder como garantia de independência.
  3. Guerras concebidas como indústria de produção de proteção, autocusteadas.
  4. Desenvolvimento de redes de diplomacia para manutenção do equilíbrio.
            Às cidades italianas sucederam a Espanha. A nova tecnologia militar e o fluxo de riquezas vindas da América produziram um enorme aumento nos gastos militares; a escalada militar e a afirmação dos estados nacionais criaram enormes conflitos e tensão social; o uso da religião nos conflitos de poder aumentou a violência.
            As Províncias Unidas sobressaíram-se neste cenário, por serem os primeiros a liquidar o sistema de governo medieval. A Holanda surge como potência hegemônica após a Guerra dos Trinta Anos. Os acordos para proteger o comércio em tempo de guerra celebrados na Paz da Westfália criaram as condições para a expansão do capitalismo; Haia permanece até hoje como o centro da diplomacia européia.
            De 1652 a 1815 há a luta entre França e Inglaterra pela supremacia. Na primeira fase ambas tentaram anexar a Holanda para controlar suas redes comerciais; na segunda fase dos conflitos o alvo são as próprias redes comerciais holandesas; a geografia política do comércio mundial é reestruturada radicalmente: saem de cena portugueses, espanhóis e holandeses; ascendem franceses e ingleses no século XVIII.
            Características do capitalismo durante o mercantilismo anglo-francês: colonização direta, escravismo capitalista, nacionalismo econômico.
            No século XVIII o caos sistêmico é fruto da intromissão do conflito social nas lutas de poder; o equilíbrio é restabelecido com o Tratado de Viena (1815); a hegemônica agora é do imperialismo britânico de livre comércio; todo o sistema interestatal é reorganizado, e passa a haver um controle inédito de uma única potência sobre quase todo o mundo. A Inglaterra combina duas filosofias: uma política “veneziana” de equilíbrio europeu e aliança com monarquias reacionárias e uma política “espanhola” de imperialismo colonial e controle direto no restante do mundo (à exceção da América, onde há uma política de apoio à emancipação das novas nações em troca da abertura dos mercados).
            A partir de 1870 a Alemanha e os Estados Unidos vão alterar a balança de equilíbrio da Pax Britânica; ambas as nações experimentam uma fase territorialista com motivação econômica; em seguida experimentam uma espetacular fase de industrialização. Mas a posição geo-econômica dos Estados Unidos (tamanho territorial, posição insular em relação à Europa e central entre centro e regiões coloniais) será determinante em seu sucesso sobre a rival.
            A próxima crise sistêmica foi motivada por um processo de socialização da gestão da guerra e do estado: a industrialização da guerra vai aumentar a influência das classes operárias; há contestação do imperialismo e uma polarização entre duas facções opostas: Inglaterra e França a favor de manter o status quo (imperialismo de livre comércio) e os novatos (Alemanha, Japão) exigindo uma mudança no poder mundial. As duas guerras mundiais vão levar à ascensão dos Estados Unidos como nova potência hegemônica e produzir uma nova reformulação do sistema interestatal, baseado na oposição Estados Unidos x União Soviética.
            Diferenças entre os períodos hegemônicos britânico e norte-americano:
  • Foco inglês no imperialismo; os EUA apostam na descolonização.
  • Livre cambismo inglês; os EUA fazem pressão por abertura de mercados em mão única.
  • O controle financeiro se desloca dos governos para grupos particulares; enquanto as companhias inglesas tinham participação parcial do governo, no período americano o papel preponderante é das empresas multinacionais.
            Para Hopkins este processo todo tem uma continuidade: as fases holandesa, inglesa e norte-americana indicariam o nascimento, consolidação e desenvolvimento do capitalismo.
            O autor se debruça então sobre o universo de possibilidades da próxima crise sistêmica, e propõe alguns pontos para consideração:
O conceito de governo mundial; organizações como ONU e FMI assumindo cada vez mais atribuições antes exclusivas da nação hegemônica.
E a crise das nações territoriais como instrumentos efetivos de governo. Jackson fala de quase-estados, referindo-se às nações terceiromundistas que copiam o modelo republicano francês sem êxito e tornam-se disjunções: estruturas com exército moderno, aparência ocidental, políticas militares, uso arbitrário do poder estatal contra os cidadãos e burocratização ineficiente. Este quadro tem se agravado com o desmantelamento do mundo comunista.
O autor considera ainda que a intensa transnacionalização das empresas globais, longe de ser uma novidade, é um reprodução em escala muito maior de experiências feitas desde as cidades italianas.
Em resumo:
Ciclos seculares de Braudel:
Longo século XVI (1450-1640): etapa formativa da economia mundial-capitalista; ciclo sistêmico de acumulação (CSA) genovês.
Longo século XVII (1640-1776): CSA holandês.
Longo século XIX (1776-1914): etapa burguesa-liberal do capitalismo histórico; CSA inglês.
            Cada “século longo” tem uma estrutura apoiada em três períodos: um primeiro período de expansão financeira onde o novo regime de acumulação se desenvolve dentro do antigo, como parte integrante da expansão e contradição do último; um segundo período de consolidação e desenvolvimento do novo regime de acumulação e um terceiro período em que a expansão financeira volta a provocar contradições e cria espaço para o surgimento de novos regimes concorrentes e alternativos.
            Cada início de ciclo de expansão financeira é chamado de crise sinalizadora. Nesse momento o agente principal do processo sistêmico de acumulação desloca seu capital do comércio/produção para a especulação financeira; isso é um preâmbulo do aprofundamento da crise que leva à substituição de um regime de acumulação de capitais por outro (crise terminal). O ciclo genovês levou 290 para passar por todo esse processo; o ciclo holandês durou 220 anos e o inglês cerca de 190; essa aceleração do ritmo da história capitalista parece indicar um ciclo norte-americano (iniciado em 1870) ainda menor.

Indústria, imperialismo e acumulação de capital
Uma das pré-condições para o boom industrial inglês foi a transferência do mundo de altas finanças de Amsterdan para Londres (1780-83), em virtude da guerra. Esse aporte permitiu elevar os empréstimos do governo de 22 milhões de libras esterlinas (1792) para 123 milhões (1815).
A intensificação da competição levou à quebra de monopólios e queda dos preços, produzindo a Grande Depressão de 1873-96; a partir daí o grande capital se desloca da esfera de produção/comércio para as finanças, mais rentável; a expansão das redes bancárias forma a City. Banqueiros como os Rothschild tornaram-se um poder autônomo na Europa, financiando os projetos imperialistas e as guerras (os gastos militares das grandes potências européias subiram de 1332 milhões de libras em 1880 para 205 milhões em 1900 e 397 milhões em 1914).
A alta remuneração do capital especulativo criará uma onde de otimismo e desenvolvimento, a Belle Epoque (1897-1914). Após a I Guerra Mundial a Inglaterra experimentou uma grande expansão imperialista, mas já a culstos muito maiores que seus benefícios. Em 1931, com o colapso do padrão ouro, ocorre o fim do domínio britânico sobre o capital financeiro mundial. As altas finanças cruzam o Atlântico e se instalam em Wall Street; inicia o reinado do dólar.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Bin Laden – O homem que declarou guerra à América (Yossef Bodansky)


Sinopse do Livro

           Osama Bin Laden nasceu em 1957; seu pai, Muhammad Bin Laden, tornou-se um importante empreiteiro com o boom do petróleo nos anos 70. Osama estudou administração e economia. No inicio dos anos 70 iniciou contatos com fundamentalistas islâmicos. A onda fundamentalista ganha força com o assassinato do rei Faisal por seu sobrinho, pró-ocidental, em 1975. Jidá, onde vive Osama, torna-se importante centro fundamentalista sob influência de estudantes egípcios; a aproximação de Sadat com o ocidente levou à formação do Partido de Deus, contrário à influência ocidental.
           A vitória da Revolução Iraniana, em 1979, comandada por Khomeini, aumentou o entusiasmo dos fundamentalistas. No mesmo ano um grupo fundamentalista liderado por Juhayman tentou derrubar a monarquia pró-ocidental da Arábia Saudita; ocuparam a Caaba, e parte da Guarda Nacional aderiu ao movimento; apenas um grupo francês de elite conseguiu derrotá-los.
           Ainda em 1979 a URSS invadiu o Afeganistão para conter a agitação fundamentalista; a agressão foi condenada por todo o mundo árabe. Mas o temor do poderio soviético impediu reações dos governos locais. Foram voluntários fundamentalistas que partiram para auxiliar o estado invadido. Osama estava entre eles.
           No inicio de 1980 Osama ajudou a organizar os primeiros campos de treinamento de voluntários no Paquistão. Lá entrou em contato com o xeique Abdallah Yussuf Azzam; Azzam militou na luta armada dos palestinos contra Israel; em seguida estudou no Egito e lecionou em Jidá, onde Osama o conheceu. Osama utilizou equipamento da construtora da família para construir estradas e instalações. Sua equipe foi por diversas vezes alvo de helicópteros soviéticos, e ele seguia trabalhando sob fogo, ignorando o perigo.

sábado, 16 de julho de 2011

Rumo à Estação Finlândia (Edmund Wilson) - Resumo Comentado

           
Relato cativante sobre os homens e a sociedade que assistem o surgimento das idéias socialistas.

Obs.: as indicações de páginas (em parênteses) são da edição de 1986, Editora Schwarcz/ Cia. Das Letras, São Paulo – SP)

Giovani Vico, italiano, propõe em 1725 um modelo de estudo da história baseado na compreensão da dinâmica social; é a história concebida como ciência.
Jules Michelet, baseado nas idéias de Vico, escreveu uma História da Idade Média; trabalhando como funcionário dos Arquivos, fez uma intensa pesquisa documental, coisa incomum para as obras da época; rompe com o romantismo na medida em que busca explicar estruturalmente os acontecimentos; faz uma análise anacrônica ao explicar a Idade Média como preparação para a Renascença (17). Sua grande obra é História da Revolução Francesa; nela ressalta as contradições fundamentais: solidariedade de classe x dever patriótico; individualismo x solidariedade (23).
Aquele que sabe ser pobre sabe tudo. (J. Michelet)
Características do método de Michelet (24):
  • Estuda as inter-relações das diversas formas de atividade humana.
  • Procura ver o passado como presente, sem horizonte definido; esforço para eliminar o anacronismo.
  • Ênfase no grupo, não nos líderes. O ator principal é o povo.
  • Sua narrativa alterna o close-up sobre um indivíuo para o movimento do grupo local e daí para a visão analítica do todo (25).
            Quando se é alguém, por que querer ser algo ? (Flaubert)(42)
            Edmund Wilson ilustra o refluxo revolucionário após a ascensão de Napoleão III (1851) citando Renan e Taine como exemplos do desinteresse pela revolução (52). Anatole France comemorou a derrota da Comuna, embora vá defender Dreyfuss em 1895 (61). Os três escrevem sobre a Revolução Francesa dentro do espírito romântico; Anatole vai se definir mais tarde como socialista.
            De Michelet a Anatole France o autor faz uma análise do ideário da revolução burguesa, de seu apogeu (1830), declínio e dissolução (70).

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Carne e Pedra (Richard Sennet)

     O autor analisa o rápido processo de urbanização que ocorre na segunda metade do século XIX; na Inglaterra há um quadro social em que 10% da população detem 90% da riqueza, e metade da população mais pobre tem apenas 3% da riqueza nacional; e ele se pergunta: o que explica a falta de uma revolução ?
     Ele considera que um dos fatores é o espírito individualista que surge nas cidades: "Cada pessoa age como se fosse estranha À sorte dos demais. Nas transações que estabelece, mistura-se aos seus concidadãos, mas não os vê; toca-os, mas não os sente; existe apenas em si mesmo e somente para si mesmo. Assim, sua mente guarda um senso familiar, não um senso social". (Tocqueville)
     O individualismo traz a perda da noção de destino e compartilhado e apatia dos sentidos; são as características da modernidade: velocidade e individualismo.
     As cidades do século XIX são planejadas com ênfase para a livre circulação de multidões e mercadorias (largas avenidas para agilizar o transito) e buscam desencorajar a aglomeração de grupos organizados (praças concebidas como pulmões; espaço para vegetação dificulta a aglomeração).
     Na França de Napoleão III o barão Haussmann faz uma remodelação urbana; largas avenidas fracionam os bairros populares para facilitar o acesso de carroças militares; o centro urbano deixa de ser um local de moradia. O traçado das vias principais prioriza o transporte de mercadorias; o acesso dos bairros pobres ao centro é dificultado.
     O metrô opera uma revolução em Londres: as classes populares, antes precariamente instaladas em guetos próximos da área central, passam a morar em melhores condições em bairros mais afastados; os pobres agora só freqüentam o centro para trabalhar e fazer compras.
 CONFORTO
     O autor vê duas motivações na tecnologia do conforto: a busca de repouso para se recuperar da crescente fadiga produzida pelo trabalho industrial; e a individualização do repouso (móveis que outrora destinavam-se a atividades coletivas, como bancos e cadeiras, cedem lugar a móveis para repouso individual, como a poltrona). O ato de defecar, coletivo até o século XVIII (a latrina era conhecida como parlatório) torna-se individual e "confortável". Os transportes ferroviários, com bancos que deixavam as pessoas de frente umas para as outras, foram substituídos por bancos de sentido único.
     Há uma mudança social: o contato coletivo dá lugar ao resguardo da privacidade e ao silêncio.
     Os cafés, outrora espaços de intensa socialização e debate, dá lugar aos novos bulevares onde as mesas são postas na calçada e uma clientela de classe média consome tranquilamente seu café em silêncio.
 ANÁLISE
     O autor escreveu este capítulo baseando-se na obra Howards End (1910), de E. M. Forster, um romance que analisa as contradições entre cidade e o campo a partir da cidade de Londres durante o reinado de Eduardo VII.
     O destaque é para o triunfo do individualismo proporcionado pelo novo ambiente urbano ("juntar, apenas...") retratando uma comunidade que é coesa porque seus habitantes não mantém relações pessoais; vidas isoladas e mutuamente indiferentes garantem um equilíbrio social, porem infeliz.
     No romance as crises familiares são resolvidas num ambiente rural (a propriedade que dá nome à obra); a transformação do ambiente retrata o desenraizamento necessário para que surjam o colorido da vida e a percepção do outro.

Democratização de cima para baixo: isso funciona ?

          Em trabalho de pesquisa feito sobre administração escolar, tomando por base algumas escolas públicas estaduais da região dos DICs, em Campinas, chamou a atenção de nosso grupo a questão de democratização do ensino.
          Há um paradoxo aparente quando estudamos a legislação e comparamos com a realidade do dia-a-dia escolar: a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9.394, de 20/12/1996) é uma legislação moderna e democrática, baseada na igualdade de condições de acesso, liberdade de ensino, pluralismo de idéias, respeito à liberdade e tolerância e na gestão democrática do ensino público (art. 3º.).
          A gestão democrática é garantida por meio de vários mecanismos:
• Acesso à docência e às funções de gestão exclusivamente por meio de concurso público e progressão baseada em avaliação de desempenho (art. 67).
• Criação de órgãos eletivos que permitam aos docentes e à comunidade participar da elaboração da proposta pedagógica e da própria administração escolar (art. 12º., alínea VI, e art. 14º.).
• Concessão de autonomia pedagógica, administrativa e financeira às unidades escolares (art. 15º.).
          O Conselho Escolar, colegiado que reúne representantes da direção, funcionários, professores, pais de alunos e alunos, estabelecido como meta pelo Plano Nacional de Educação (lei 10.172/2001), é a máxima instância deliberativa da unidade escolar. Há ainda a APM (Associação de Pais e Mestres) e os estudantes possuem liberdade para se organizarem politicamente em Grêmios Estudantis.
          Na prática, porém, verifica-se que os canais institucionais abertos não são utilizados, ou são utilizados raramente; a gestão democrática garantida pela legislação esbarra num obstáculo gigante, que é a cultura anti-política do povo brasileiro, descrita por Paranhos; a idéia popular de que política é algo sujo e não produz mudanças de fato leva à perda do “conceito de política como espaço de criação individual e coletiva, múltiplo, contraditório, conflituoso, aberto, no cotidiano da existência humana, à expressão dos mais diferentes desejos e interesses” (PARANHOS, p. 53).
          O brasileiro carece de formação para exercer sua cidadania de forma crítica e participativa; apenas a organização da sociedade permite “dirigir ou controlar aqueles que dirigem”, como Mario Manacorda define cidadania (LIBANEO p. 119).
          A escola é vítima da mesma apatia que imobiliza o movimento sindical e até a mesmo a democracia partidária; ao afastar-se dos canais legítimos de debate e decisão a população está inconscientemente permitindo que sejam apropriados por pequenos grupos agindo em interesse próprio.
          Nas escolas pesquisadas verificamos uma sub-utilização dos canais democráticos; os colegiados atuam pro-forma, basicamente referendando as iniciativas da direção. O debate via de regra é restrito a assuntos corriqueiros, como as festividades que a escola promove ao longo do ano e as despesas com manutenção do prédio escolar. Isso fica evidente sobretudo em relação ao grêmio estudantil: o colegiado não possui espaço próprio para funcionar; a alegação de um dos diretores (“não temos espaço disponível para isso”) indica claramente o grau de importância atribuído à atuação política dos estudantes; e porfim a própria falta de consciência dos estudantes em relação ao órgão: o grêmio é entendido como uma espécie de auxiliar para organização de festas; chegou a realizar uma mobilização para arrecadar roupas para vítimas locais de uma enchente, mas não ocupa seu espaço político, não tem atuação reivindicatória. Um dos diretores atribui isso a uma conjuntura negativa: os alunos mais novos não têm interesse no assunto; os estudantes do noturno acabam assumindo o grêmio, mas o próprio fato de trabalharem de dia limita sua capacidade de atuação.
          O sr. Adilson, com 20 anos de serviços na rede estadual e 9 como diretor da escola, é um quadro vivo da situação: é um homem que ama profundamente a unidade escolar e seus alunos, mas que está evidentemente cansado com o quadro massacrante que enfrenta todo dia. Ele cita um dado fundamental: quando iniciou seus trabalhos nesta escola cerca de 10% dos alunos apresentavam um quadro que ele define como abandono psico-social; eram crianças oriundas de famílias desestruturadas devido a problemas com drogas, álcool, criminalidade e problemas financeiros; crianças expostas a uma realidade de grande violência. Hoje ele acredita que quase 50% dos alunos da escola vivem alguma forma de abandono mencionada.
          Tudo isso é usado como argumento para reforçar o discurso neo-liberal; não estamos vivendo uma crise de democratização, mas uma crise gerencial (GENTILI, p. 17). Ao invés de procurarmos criar uma cultura de diálogo entre comunidade e escola, para que possam se compreender e ajudar mutuamente, gastamos cada vez mais dinheiro público com foco voltado à “eficiência”: terceirização de serviços (no caso das escolas pesquisadas, a merenda escolar e o funcionamento da sala de informática) e recursos tecnológicos (uma delas possui, por exemplo, circuito fechado de TV para monitoramento de segurança).
Nessas condições fica difícil pensar em cidadania ou em qualidade de ensino, pois falta o básico, que são noções primárias de moral e convivência; o diretor desabafa: “qualidade de ensino é uma batalha que não se pode vencer”. Sua fala nos remete diretamente ao cerne da questão: a rede pública vive sobretudo uma crise de fé, de acreditar no trabalho que precisa ser feito.

Bibliografia
LIBANEO, José Carlos; OLIVEIRA, João Ferreira de; TOSCHI, Mirza Seabra. Educação Escolar: políticas, estrutura e organização; Cortez Editora, 5a. ed.
PARANHOS, Adalberto. Política e Cotidiano: as mil e uma faces do poder; in Introdução às ciências sociais, 10a. ed., Campinas-SP, Papirus, 2001.
GENTILI, Pablo; SILVA, Tomaz Tadeu da. Escola S.A., CNTE.
LDB 96, disponível em http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/ldb.pdf; consultado em 01/06/2011.

Revolução Industrial : breve sumário de causas e consequências

As Causas

David Landes traça um interessante quadro das condições que permitem o desenvolvimento da Revolução Industrial na Inglaterra a partir de 1750: é um processo articulado que inclui transformações políticas, sociais e econômicas.
A mecanização dos processos de produção, normalmente considerada como o ponto de partida do processo, na verdade permaneceu em compasso de espera até que surgissem as condições estruturais para a efetiva operação de um modelo fabril; o processo de fabricação da lã, por exemplo, já é parcialmente mecanizado desde o século XI, com martelos movidos a água; o tear mecânico data de 1598 (LANDES, 86).
Há na verdade uma somatória de condições político-econômicas favoráveis surgidas ainda na fase pré-industrial (baseada em oficinas artesanais independentes) que vai estimular a mecanização:

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Maldita Guerra, de Doratioto: um debate historiográfico


            O autor está analisando as causas do conflito (Guerra do Paraguai); ao apresentar um novo modelo explicativo, ele contesta os discursos historiográficos vigentes:
 O discurso do vencedor: é a justificativa oficial da entrada do Brasil na guerra; o Império estaria se defendendo da captura traiçoeira de um navio brasileiro no rio Paraguai e a invasão de seu território sem declaração de guerra; o Brasil atua em legítima defesa, e em seguida invade o Paraguai para destituir o tirano que escraviza o povo paraguaio e ameaça a paz na região. Fortalece o mito do “gigante pacífico” e está impregnado de dualidades no estilo herói x vilão, civilização x barbárie. É um discurso carregado de apologia à coragem dos heróis nacionais que legitima o nacionalismo monárquico e que será apropriado mais tarde pelos governos militares.
 O revisionismo: é a contestação da explicação oficial, sempre com motivação política. A primeira grande contestação à versão oficial é feita por autores positivistas no início da República. Há o receio de uma reação monárquica e a preocupação em consolidar o novo regime. O Brasil passa a ser apresentado como responsável pelo conflito.
            O momento mais importante do revisionismo ocorre na década de 1970, com o livro Genocídio Americano: a Guerra do Paraguai, de Júlio José Chiavenatto; no novo modelo explicativo o conflito é visto como parte do processo de expansão do imperialismo inglês pelo mundo. O interesse inglês pelo estuário do Prata é evidente, e a Inglaterra tentou controlar militarmente a região no início do século XIX. Para Chiavenatto os ingleses estariam incomodados com o modelo de economia autônoma que os paraguaios estariam construindo, e teriam estimulado Argentina e Brasil (apresentados então como satélites da potência) a explorar as tensões regionais existentes e atacar o Paraguai. Lopez deixa de ser um tirano cruel para tornar-se um herói antiimperialista.