sábado, 16 de junho de 2012

Nação e Identidade: evolução do discurso nacionalista na América Latina


          Claudia Wasserman faz uma análise historiográfica da evolução do discurso nacionalista e identitário na América Latina, buscando compreender em que condições esse discurso é produzido e quais suas repercussões.
            A autora verifica que desde as lutas de independência, no inicio do século XIX, os líderes políticos e a intelectualidade das terras centro e sul-americanas estão entusiasmados com modelos teóricos vindos da Europa e com o sistema republicano norte-americano. O paradigma europeu é evidente nos escritos de Simon Bolívar (como no exemplo analisado em sala de aula, citando Montesquieu num trecho de “Cartas da Jamaica”), San Martin, Hidalgo e tantos outros. A partir daí cria-se, segundo Claudia Wasserman, o primeiro grande problema do novo discurso identitário: a fascinação pelo discurso europeu é excessivamente subjetiva e idealizada; não há uma percepção da realidade a partir da observação atenta e descompromissada, mas uma interpretação romântica da realidade a partir de modelos ideais; isso vai criar, por exemplo, a convicção de que havia no subcontinente a preexistência de uma comunidade nacional culturalmente identificada anterior à luta pela emancipação, e fazer com que se ignore o intenso processo de pulverização do poder central (localismo) e ruralização que se aprofundam a partir das reformas bourbônicas e vai tornar cada vez mais difícil a aproximação entre as diversas regiões, ou a constituição de uma unidade administrativa estável nas antigas unidades coloniais espanholas (WASSERMAN, p. 102-106).
            Os sonhos de produzir uma sociedade a partir de um projeto liberal, que fosse republicana, democrática, igualitária, racional, industriosa, aberta à inovação e ao progresso resultaram, cinquenta anos depois, em sociedades oligárquicas, dominadas por caciques, morosa, cada vez mais desconjuntada, introvertida, sacudida pela inovação e pelas mudanças produtivas, mas sempre manietada por suas tradições coloniais (CAMIN, p. 14).
            Isso vai produzir um discurso historiográfico e político que busca identificar as causas do “fracasso”; são freqüentes as concepções de nações incompletas e revoluções inacabadas. Há intensa frustração pela não implantação de modelos pré-determinados (situação impossível, uma vez que os construtores das nacionalidades européias são burgueses, enquanto nas Américas a emancipação é liderada por latifundiários rurais). Amparados no cientificismo então em voga na Europa, terra, clima e raça serão consideradas como chaves interpretativas das “deformações, desvios e incompletudes” do processo de construção da nação, dando origem a propostas de “branqueamento” da população (imigração de europeus e extermínio dos indígenas) e de rompimento e repúdio aos valores ibéricos (WASSERMAN, p. 106).
            Embora esse discurso determinista sobreviva até época recente, a partir das enormes transformações que ocorrem na sociedade no final do século XIX e inicio do XX surgirá uma nova interpretação historiográfica focada na questão política. Esse novo discurso é concomitante com o período de consolidação de uma aristocracia fundiária baseada em monoculturas para exportação; em defesa de seus interesses, essas oligarquias fundaram as bases institucionais dos estados políticos latino-americanos, eliminando localismos caudilhescos e centralizando a administração. Predominam então os discursos positivistas de manutenção da ordem; apenas a “ordem positiva” vai criar as condições necessárias para o progresso; é nesse ambiente que frutifica o arielismo, com suas idéias de “emancipação mental” e libertação de modelos estrangeiros (RODÓ, p. 300).
            O discurso positivista se propõe a demonstrar “cientificamente” que os povos latino-americanos eram incapazes de realizar princípios liberais e democráticos e justificar os governos oligárquicos como uma necessidade.
            As intensas transformações deste periodo são o tema do texto de José Luis Romero. O que acontece na América Latina é reflexo da Revolução Industrial em andamento na Europa: os centros industriais são repentinamente assaltados por uma demanda cada vez maior por matérias-primas e pela necessidade de abrir mercados consumidores para seus produtos. Essa dinâmica vai atingir a América Latina exatamente nas cidades que se integram à economia mundial: inicialmente as grandes cidades portuárias, e em seguida as regiões produtoras que vão se integrando à rede de ferrovias que se espalham pelo continente. O rápido crescimento dessas cidades vai produzir uma transformação radical da sociedade: as novas oportunidades atraem habitantes das áreas rurais e imigrantes estrangeiros em grande quantidade; surge um espaço de grande mobilidade social que altera o sistema tradicional de relações sociais (ROMERO, p. 295). Parte do velho patriciado rural soube se adaptar aos novos tempos, aliar-se ao capital estrangeiro e ingressar no novo mundo industrial-financeiro; mas o que garantiu a grande dinâmica do processo foi uma classe de pessoas de poucas posses porém livres das limitações dos hábitos tradicionais e que rapidamente se adaptaram ao novo ambiente empreendedor; partindo do pequeno comércio e da prestação de serviços elas foram enxergando as oportunidades oferecidas pelas novas demandas e em pouco tempo constituíram grandes fortunas. Entrava em cena a burguesia urbana; dona do mundo dos negócios, ela logo disputaria com as antigas oligarquias o controle político.
            É nas cidades que vai tomar forma outro importante agente social: o proletariado industrial. Reunidos em grandes grupos nesse novo ambiente coletivo da fábrica, onde prevaleciam relações sociais despersonalizadas (diferente da relação patriarcal predominante no meio rural), eles logo vão construir uma identidade de classe e se organizar para defender seus interesses (ROMERO, p. 307).
            Nesse ambiente de intensa circulação de idéias e mobilidade social nasce uma nova cultura urbana; os hábitos cotidianos se modificam, a ocupação dos espaços se transforma. A burguesia e o proletariado se organizam politicamente e exigem o direito de intervir na vida política do país.
            A contestação do sistema oligárquico é a tônica do novo discurso historiográfico e político; a crítica da intelectualidade latino-americana é agora contra o modelo de capitalismo implantado pelas oligarquias exportadoras (que cria uma relação de dependência e vulnerabilidade às oscilações dos centros produtores estrangeiros) e pela clausura política por eles imposta (WASSERMAN, p. 112).
            A Revolução Mexicana é um retrato vivo desse momento de contestação do modelo republicano oligárquico, analisado no texto de Hector Aguilar Camin/ Lorenzo Meyer: as décadas de dominação do porfirismo são um exemplo clássico do estado a serviço de grandes latifundiários exportadores. Longe de ser um período de crise, é um periodo de intenso desenvolvimento econômico, que vai produzir dois reflexos distintos:
  • Vai acentuar os problemas sociais, na medida em que a expansão dos latifúndios acaba com as pequenas propriedades comunitárias, o rápido surto de crescimento provoca uma inflação que corrói o salário dos trabalhadores e a valorização das terras provocada pela chegada das ferrovias produz uma onde de desapropriação de terras camponesas.
  • O monopólio do poder exercido pela oligarquia ligada a Porfírio Diaz impede a participação política e a ascensão social da nova burguesia urbana e de setores conservadores que foram alijados do poder.
            A contestação ao regime parte de setores conservadores da sociedade, grandes famílias patriarcais e a classe média burguesa que pressionam por maior participação política. È a intransigência do regime porfirista que vai levar à radicalização do movimento. Como analisa brilhantemente Adolfo Gilly, é uma revolução burguesa que vai mobilizar as massas para ter seu apoio (GILLY, p. 40).
            Estruturalmente a Revolução Mexicana ocorre num período de transição entre dois modelos: a república oligárquica, organizada para atender as demandas dos grandes latifúndios exportadores que estavam se expandindo às custas do sistema indígena de propriedade coletiva das terras (CAMIN, p. 16); e a república burguesa que é necessária para atender as demandas da nova classe de industriais que controla a economia (GILLY, p. 27).
            Nesse sentido, embora cheia de especificidades (como a prematura organização política dos camponeses em grupos como os zapatistas, muito anterior à organização do proletariado urbano), a Revolução Mexicana representa um processo de contestação dos governos oligárquicos e sua progressiva substituição por governos burgueses que ocorrerá em toda América Latina.
            Estes novos governos trazem um discurso vigorosamente nacionalista e de valorização dos aspectos identitários (WASSERMAN, p. 113). A vida política deslocou-se da reunião de algumas famílias para a praça pública; a entrada das massas na arena política não significou, no entanto, democracia: os novos governos são autocráticos e ditatoriais, mas apoiados em amplo apoio popular, sobretudo das classes urbanas, conquistado por meio de concessões sociais e de políticas estatais paternalistas (ROMERO, p. 327).
            O triunfo da burguesia traz consigo uma nova mentalidade amparada numa filosofia do progresso; tudo que se opunha ao desenvolvimento linear e acelerado do mundo urbano e europeizado era condenável (ROMERO, p. 344). A ascensão social não é mais determinada pelo sangue, mas pelo êxito econômico. Tudo isso abre um fosso enorme entre o mundo urbano e o mundo rural, ainda controlado pelos latifundiários, sem mobilidade social e firmemente identificado com os valores tradicionais do catolicismo; sobretudo à medida que o controle político e econômico se desloca do campo para a cidade (ROMERO, p. 334).
            Na década de 1930 a cidade se afirma cada vez mais como um espaço de pluralidade; deixou de ser um conjunto integrado, como o da sociedade colonial, e afirma-se cada vez mais como uma justaposição de grupos de diferentes mentalidades; a nova sociedade multitudinária quebra o velho sistema de normas e valores. As tensões daí decorrentes vão produzir comparações com a Babel bíblica; é no ambiente urbano que o papel feminino na sociedade é contestado, numa revisão constante do sistema de normas sociais (ROMERO, p. 351).
            O discurso historiográfico reflete estas transformações e o pluralismo: o marximo é incorporado como modelo explicativo e como instrumento de luta política (ao mesmo tempo em que revive o hábito de importar modelos prontos) e se fortalece a defesa da aproximação entre os países latino-americanos, que vai desembocar em iniciativas como a criação da CEPAL.

CAMIN, Hector Aguilar. MEYER, Lorenzo. À sombra da Revolução Mexicana: história mexicana contemporânea, 1910-1989.

GILLY, Adolfo /outros autores. Interpretaciones de la revolucion mexicana.

RODÓ, José Enrique. Ariel (fragmento)

ROMERO, José Luiz. América Latina: as cidades e as idéias

WASSERMAN, Claudia. Percurso Intelectual e Historiográfico da Questão Nacional e Identitária na América Latina: as condições de produção e o processo de repercussão do conhecimento histórico


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