segunda-feira, 4 de julho de 2011

Revolução Industrial : breve sumário de causas e consequências

As Causas

David Landes traça um interessante quadro das condições que permitem o desenvolvimento da Revolução Industrial na Inglaterra a partir de 1750: é um processo articulado que inclui transformações políticas, sociais e econômicas.
A mecanização dos processos de produção, normalmente considerada como o ponto de partida do processo, na verdade permaneceu em compasso de espera até que surgissem as condições estruturais para a efetiva operação de um modelo fabril; o processo de fabricação da lã, por exemplo, já é parcialmente mecanizado desde o século XI, com martelos movidos a água; o tear mecânico data de 1598 (LANDES, 86).
Há na verdade uma somatória de condições político-econômicas favoráveis surgidas ainda na fase pré-industrial (baseada em oficinas artesanais independentes) que vai estimular a mecanização:

1. Oferta abundante de lã bruta
2. Longo período de paz (ao contrário do continente, sempre instável)
3. Afluxo de artesãos estrangeiros
4. Fácil acesso dos centros de produção aos mercados por vias navegáveis
5. Crescimento demográfico acentuado
6. Ausência de barreiras alfandegárias
7. Investimento público/privado em estradas, pontes e vias fluviais
8. Mercado interno com alta renda per capita
9. Sociedade com alta mobilidade de classe
10. Aristocracia com aspirações burguesas, interessada em investir na produção

A produção em oficinas de tecelões logo se revelou incapaz de atender a crescente demanda (o consumo de algodão salta de 2,5 milhões de libras em 1760 para 22 milhões em 1787); entre as dificuldades da oficina estão o sistema tradicional de trabalho (obstáculo ao aumento de produtividade da mão-de-obra contratada) e os furtos constantes de matéria-prima.
Uma grande demanda por produção ocorreu no passado, na Itália e em Flandres, mas não foi suficiente para produzir uma revolução industrial. Esse momento é específico: a grande demanda torna-se imperativa devido à capacidade de pressão política da ascendente classe burguesa da Inglaterra, pois a criação do novo ambiente fabril demanda três grandes transformações:

• Surgimento de grandes propriedades rurais voltadas à produção de matérias-primas em larga escala; é o processo de cercamento, voltado inicialmente à produção de lã.
• Desarticulação das guildas (ligas de tecelões) e aproveitamento dos trabalhadores rurais que migram para as cidades; substituição das oficinas artesanais pela fábrica.
• Desenvolvimento tecnológico direcionado ao aumento da produção.

A precocidade com que o processo industrial ocorre na Inglaterra deve-se ainda ao estímulo de dois fatores: o ambiente sócio-cultural favorável às atividades comerciais, e o grande afluxo de capital destinado à mecanização da produção, o que estimula o rápido desenvolvimento tecnológico; ambos derivados do interesse da aristocracia em participar dos processos de produção.
É nesse ponto que o progresso tecnológico torna-se preponderante: a siderurgia desenvolve-se para atender o crescente uso de ferro nos novos maquinários; o uso de caldeiras e tubulações de ferro vai levar à grande descoberta que vai revolucionar os processos de produção: o uso do vapor para movimentar o maquinário.
A substituição do esforço animal pelo vapor inicia uma era inteiramente nova para a humanidade; é difícil para nós, hoje tão habituados à mecanização, entender o quadro de novas possibilidades que se abriam. Em 1870, por exemplo, a capacidade da máquinas a vapor da Inglaterra era de 4 milhões HP; para gerar isso com força animal seriam necessários 6 milhões de cavalos!
A partir da disseminação do uso de máquinas a vapor a produção industrial conhece um salto fabuloso:
A produção de ferro-gusa pula de 125.000 toneladas em 1796 p/ 2.700.000 de toneladas 50 anos depois.
O consumo de carvão vai de 11 milhões de toneladas em 1800 para 100 milhões em 1870.
A produtividade do homem aumenta em mais de 100 vezes em pouco mais de meio século!

Mudanças Sociais

Leo Huberman identifica a evolução dos sistemas de produção em quatro estágios, no período entre os séculos XVI e XVIII:
1. Sistema familiar: produção essencialmente para atender o consumo próprio; comercialização eventual do excedente.
2. Sistema de corporações: liderado por mestres artesãos independentes, donos da matéria-prima e dos meios de produção.
3. Sistema domiciliar: criado para atender ao crescimento da demanda, o mestre artesão e seus ajudantes trabalham com matéria-prima fornecida pelo encomendante, mas ele ainda é proprietário das ferramentas.
4. Sistema fabril: o trabalhador perde completamente sua independência; fica num ambiente controlado pelo empregador (fábrica) e vende sua força de trabalho (HUBERMAN, 125).

Maurice Dobb considera que a formação do proletariado é conseqüência direta do processo de concentração rural, sobretudo o cercamento dos campos e a dispersão os dependentes feudais. A grande propriedade rural voltada à produção de lã formou-se às custas da apropriação de terras e expulsão do pequeno campesinato (DOBB, 160).
A legislação medieval que restringia a migração do trabalhador rural para a cidade é modificada; as corporações são desarticuladas, e o estado passa a incentivar a migração como forma de manter os salários baixos; chega até a instituir o trabalho sob coerção para atividades com dificuldades para arregimentar braços, como a mineração (idem, 167).
Esse período de grande crescimento demográfico (a população mundial dobra entre 1780 e 1880, chegando a 1,5 bilhão) e rápida urbanização passa a ser o cenário do espetáculo da pobreza retratado por Maria Stella Bresciani: as multidões de trabalhadores das fábricas, viviendo amontoadas em bolsões de miséria. Habituados ao ritmo do trabalho rural tradicional, estes trabalhadores são naturalmente avessos à exploração do trabalho industrial, presos ao ritmo da máquina e do relógio. Uma nova legislação vai classificá-los como vagabundos, enquanto uma nova moralidade social vai enaltecer a positividade do trabalho (BRESCIANI, 80).
O trabalho fabril na Inglaterra do século XIX : jornada de trabalho de 12 a 16 horas; restrições para tomar água ou mesmo usar o banheiro; exploração do trabalho infantil em larga escala; acidentes freqüentes na operação do maquinário.
Huberman cita o caso de um proprietário de escravos das Índias Ocidentais que fica chocado ao ver as condições em que crianças trabalham em Londres (HBERMAN, 192).
Essas massas são vistas com apreensão pela alta sociedade; há uma cobrança constante por mecanismos de controle social. Os ingleses usam com êxito uma combinação de moral religiosa e direitos naturais de inspiração iluminista que incentivam a resignação; apenas a grande fome da década de 1880 vai fazer com que trabalhadores londrinos se organizem para fazer greves e reivindicações (BRESCIANI, 106).
Na França, porém, o imaginário das classes menos favorecidas tem uma herança de identidade enquanto povo e de recurso à violência para promover mudanças políticas; o temor das jornadas revolucionárias e as agitações de 1830 e 1848 trarão como reação a organização de um forte aparato policial para reprimir manifestações (idem, 120).
As estratégias de controle social são também tema do capítulo de Richard Sennet, Individualismo Urbano; na segunda metade do século XIX o espaço urbano das grandes cidades passa por reformas que privilegiam a velocidade de movimentação de pessoas e mercadorias e o controle social; os pobres são progressivamente removidos das áreas centrais das cidades.
Sennet vê ainda a cultura coletiva do campo ser substituída nas cidades por uma valorização da individualidade; esse ambiente de isolamento e indiferença pelo destino alheio funciona como fator de equilíbrio social e obstáculo à mobilização (SENNET, 264).
Parece contraditório que a mesma classe social que liderou um dos processos mais transformadores da Humanidade adotasse ao mesmo tempo um código de conduta extremamente conservador; a moral burguesa é impregnada de uma obsessão pelo autocontrole; uma moral repressiva que faz com que o indivíduo seja atormentado pela autocensura (GAY, 10). A naturalidade, a paixão, o prazer, são contrários ao ideal puritano burguês; apenas se dá valor ao autocontrole e ao que confere prestígio (HOBSBAWN, 2). Nesse contexto o casamento é um instrumento de ascensão social; um assunto a ser tratado de forma calculista, onde a paixão pode ser um empecilho para uma “feliz união”.
No outro extremo da escala social, as duras condições de trabalho e de vida do proletariado, em meio à fome e às doenças, vão ser o ponto de partida de projetos de reforma social, entre os quais se destacarão as idéias socialistas de Karl Marx. Aqui está o nascedouro dos movimentos sindicais e da luta que forçará progressivamente o estado a regular as relações entre trabalhadores e empregadores.

Conclusão

Fica evidente que a Revolução Industrial é um dos principais eixos de transformação deste gigantesco processo que concebe o mundo contemporâneo: fruto da expansão comercial européia e da ascensão de uma nova classe social, a fábrica vai criar um novo modelo de sociedade, capitalista; reunidos para operar suas máquinas, os operários vão compor a força política que disputará com os burgueses o controle da nova sociedade industrial; suas diferenças serão um dos principais componentes dos conflitos armados do século XX e da divisão do mundo em dois grandes sistemas políticos. Antes disso, porém, a fábrica estará equipando os exércitos do imperialismo europeu empenhados numa expansão para conquistar sobretudo novos mercados.
O imaginário vai ver a fábrica como um dos grandes símbolos de nossa sociedade; o poder das nações vai ser medido pela sua capacidade de industrialização. Gerência empresarial tornou-se um modelo para quase tudo; num certo sentido, é como se toda a sociedade se concebesse como uma gigantesca fábrica, um arquétipo da própria sociedade.

Bibliografia

BRESCIANI, Maria Stella Martins. Londres e Paris no século XIX: o espetáulo da pobreza. Editora Brasiliense.
DOBB, Maurice. A Evolução do Capitalismo. Rio de Janeiro,, Zahar Editores, 1983.
GAY, Peter. A Paixão Terna, vol. 2. Cia. Das Letras.
HOBSBAWN, Eric. A Era do Capital. Disponível em: http://66.228.120.252/resenhadelivros/2701150 consultado em 21/05/2011.
HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do Homem. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1973
LANDES, David S. Prometeu Desacorrentado. Editora Nova Fronteira.
SENNET, Richard. Carne e pedra, o corpo e a cidade na civilização ocidental. Rio de Janeiro, Editora Record.

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