sábado, 12 de julho de 2014

Disseminação de idéias no milieu esotérico: notas sobre a influência de Gurdjieff no Movimento Gnóstico de Samael Aun Weor




 Introdução

            O objetivo deste artigo é contribuir com o debate proposto pelo sociólogo italiano Pierluigi Zoccatelli, que analisa a influência das idéias do esoterista armênio George Ivanovitch Gurdjieff (1866-1949) sobre o Movimento Gnóstico fundado pelo colombiano Samael Aun Weor em 1949.

            O objetivo de nossa pesquisa é analisar estratégias discursivas de legitimação doutrinária e identitária no milieu do moderno esoterismo ocidental; interessam-nos em particular historicizar os processos de apropriação e construção de representações sociais a partir da metodologia proposta por Roger Chartier e Sandra Pesavento. A definição e delimitação do esoterismo como campo de estudo acadêmico é tema de um acesso debate dentro da Ciência das Religiões; optamos pelo estudo do esoterismo enquanto campo específico de pesquisa, a História do Esoterismo Ocidental, e em especial pela abordagem cultural proposta por historiadores do esoterismo como Kocku von Stuckrad, Willian Goodrick-Clark e Wouter Hanegraaf, que propõem um modelo de história religiosa que concebe a Europa como um espaço multirreligioso onde ocorre uma permanente dinâmica de inter-relação e influência mútua, e que consideram o esoterismo como elemento estrutural da cultura ocidental moderna (Stuckrad, Goodrick-Clark, Hanegraaf); a delimitação do objeto de estudo e a definição de sua identidade comum é feita a partir dos conceito de cultic milieu de Colin Campbell (Campbell, p. 122-123), e de “campo discursivo” de von Stuckrad, que basicamente versam sobre como os traços comuns da cosmovisão esotérica superam as barreiras institucionais e estimulam um intenso trânsito de idéias e uma profunda apropriação sincrética. (Stuckrad 2005, p. 3-11)

domingo, 30 de junho de 2013

Análise do Filme “O Patriota” como elemento do imaginário sobre a Revolução Americana



            Sinopse

            O filme "O Patriota" foi dirigido por Roland  Emmerich e seu roteiro foi escrito por Robert Rodat (que escreveu também o roteiro de "O Resgate do Soldado Ryan"). Fazem parte do elenco os atores Mel Gibson e Heath Ledger, dentre outros. O filme é ambientado na Carolina do Sul em 1776, e o seu contexto histórico é a Revolução Americana. O pai,  Benjamin Martin (Mel Gibson) luta ao lado de seu filho idealista Gabriel (Heath Ledger), para defender a sua família e a causa  norte-americana (Independência das treze colônias que estavam sob o domínio Britânico). Ex- combatente nas guerras coloniais contra os franceses, agora com seus sete filhos, sofre com o conflito espiritual e moral por ter cometido ações cruéis no passado.
   Benjamin Martin, viúvo, vive com seus sete filhos (Gabriel,  Thomas, Samuel, Nathan,  Margareth,  Willian e Suzan) em uma fazenda na Carolina do Sul. Ele é então convocado para ir a Filadélfia para um debate sobre a adesão da Carolina do Sul à guerra com a Inglaterra; Benjamin se opõe ao conflito. Contudo, seu filho Gabriel, profundamente idealista, ingressa no exército. Com o intuito de proteger seu filho, acaba ingressando também. Sua fazenda foi transformada em palco de guerra e nessas circunstâncias teve seu filho Thomas assassinado pelo Coronel Willian Tavigton que servia o Rei George III da Inglaterra. Durante sua jornada na guerra, buscou incessantemente vingança pela morte de seu filho, travando uma batalha pessoal com o seu  inimigo.
   Benjamin Martin organizou uma milícia composta por colonos civis, escravos e fazendeiros que combateu ao Sul dos EUA. Durante um dos conflitos seu filho mais velho é assassinado também. Infeliz por não  poder salvar seu próprio filho, decide sair da guerra e voltar para casa. No entanto, ao ver a bandeira que seu filho tanto lutou para honrar, decidiu retomar a luta.
   Os milicianos receberam apoio da França, representada no filme pelo personagem Jean Villeneuve.  O filme é inspirado numa concepção ufanista e ideológica do “nascimento da nação americana”, aqui apresentada como o primeiro governo democrático do mundo.

            Análise

            O filme retrata uma situação claramente maniqueísta, tão ao gosto das produções cinematográficas: é uma luta entre o bem e o mal, em nenhum momento paira qualquer dúvida sobre quem são o mocinho e o vilão.
            O drama pessoal de Benjamin Martin (o personagem de Mel Gibson) representa o universo de representações sobre a própria nação norte-americana no contexto descrito: Benjamin vai à Filadélfia participar de um congresso que vai decidir pela adesão da Carolina do Sul à guerra contra a Inglaterra; a despeito de sua simpatia pelo movimento de independência, ele se opõe à guerra e entra em sério conflito com seu filho Gabriel, que decide se alistar.
            A cena do congresso é significativa: apesar da imensa anglofobia que domina a cidade (bonecos vestidos como soldados ingleses são vistos sendo queimados na frente dos prédios públicos), a assembléia debate democraticamente a questão: até mesmo um americano leal à coroa inglesa fala com inteira liberdade.
            Quando o representante do exército continental fala em lutar pela nação causa uma curiosa confusão entre os assistentes, claramente identificados como cidadãos da Carolina do Sul. “Que nação é essa?”, indagam. “Uma nação americana”, responde um dos assistentes. “Somos cidadãos de uma nação americana, e nossos direitos estão sendo ameaçados por um tirano a 3.000 milhas daqui”.

            A fala de Benjamin contrária à independência retrata o pensamento libertário da época:

 “Porque se livrar de um tirano a 3.000 milhas daqui para cair nas mãos de 3.00 tiranos a uma milha daqui? Legisladores eleitos podem cercear os direitos de um homem tão facilmente quanto um rei.”

            Benjamin é contrário aos impostos ingleses e favorável ao “auto-governo das colônias”, mas decididamente se opõe a uma guerra contra a Inglaterra. O representante do exército declara: “Se nossos princípios exigem a independência, a guerra é o único caminho”. Ao final, Benjamin esclarece sua oposição: seu papel como pai (suas obrigações morais) se sobrepõe às suas obrigações como cidadão: “Sou pai, não posso me dar ao luxo de ter princípios”.
            Seu filho mais velho, Benjamin, contraria suas ordens e decide se alistar.
            O conflito Benjamin x Gabriel alegoriza a imensa divisão que havia entre os próprios colonos americanos quanto à questão de combater contra a Inglaterra, como aparece retratada no filme no resultado da votação pelo conflito: 28 votos contra 12; Willi Adams avalia entre 80.000 e 100.000 o número de pessoas que abandonaram as colônias rebeldes durante o conflito (Adams, p. 26); o texto de Bernard Vincent informa que até 1775 a idéia de independência era tremendamente impopular e “o homem que se pronunciasse a seu favor na presença de terceiros estaria se arriscando” (Vincent, p. 50); o próprio Thomas Paine é adversário da idéia nesse periodo.
           
            A primeira parte do filme retrata os americanos lutando à maneira européia e sofrendo sucessivas derrotas.
            Passaram-se dois anos e o conflito logo chega à propriedade de Benjamin, na Carolina do Sul; suas terras são ocupadas pelo exército inglês; os britânicos se comportam de forma desumana e na ocasião Gabriel é feito prisioneiro e outro filho de Benjamin, Thomas, é assassinado pelo coronel Willian Tavigton. Diante de tamanha violência Benjamin decide lutar.
            A invasão da propriedade de Benjamin e os excessos dos ingleses representam a forma como os colonos visualizam a situação: os protestos pacíficos dos colonos contra as taxações e um conjunto de medidas arbitrárias por parte do governo britânico são reprimidas violentamente, como na ocasião do Massacre de Boston, em 1770; diante da violência dos ingleses e do fracasso das negociações não resta outro recurso que a rebelião armada; o recurso discurso é assim apresentado por Willi Adams: “a revolução americana (...) é o último ato desesperado de resistência de colonos explorados” (Adams, p. 15).

            O personagem Benjamin constitui uma clara representação idealizada do colono norte-americano: ele é um pacífico agricultor devotado inteiramente à família; seu comportamento está impregnado de um forte senso moral de dever; no filme ele é um pai que educa sozinho seus sete filhos depois do falecimento de sua esposa, Elizabeth. Seu elevado senso de moral e justiça é mostrado nas cenas sobre sua propriedade: é um pai preocupado em educar seus filhos através do exemplo; os negros vistos trabalhando em suas plantações sugerem que seja um proprietário de escravos; mas quando as forças inglesas chegam e anunciam sua liberdade, um deles logo esclarece que são trabalhadores livres assalariados. Benjamin lembra exatamente a forma como Tocqueville representa o povo norte-americano em Democracia na América: “(...) as conquistas do americano se fazem com a charrua do agricultor, as do russo com a espada do soldado” (Losurdo, p. 94).
            Há outra dimensão evidente no filme: a enorme importância de que se reveste a “religião civil”, essa apropiração de valores protestantes que é tão singular na cultura americana (Oliveira, p. 13), na formatação do comportamento social do colono; o profundo senso moral da sociedade da época é retratado, por exemplo, na rígida etiqueta social que impede a aproximação entre o viúvo Benjamin e sua cunhada solteira, Charlote Seltton, a despeito da evidente “química” existente entre os dois personagens; outro exemplo significativo está no noivado entre Gabriel e Anne Howard: durante um intervalo nos combates Gabriel é hospedado na casa dos pais da noiva; a condição para poder dormir na casa é que ele seja costurado num saco que cobre todo seu corpo, para evitar qualquer contato físico entre os noivos durante a noite!
            Aqui se abre uma dicotomia interessante: ao mesmo tempo em que Benjamin e sua família representam uma espécie de inocente pureza cristã do colono americano, impregnado de altos valores morais e senso de justiça, Benjamin também representa um outro “eu” oculto, cuja lembrança é extremamente dolorosa. A “sombra” de Benjamin está representada pelo periodo em que ele lutou lado a lado com indígenas simpáticos à coroa inglesa contra os colonizadores franceses e seus próprios aliados autóctones; aqui ele surge como o colono fronteiriço que constitui uma síntese do que há de melhor nas duas culturas; ele assimila toda a habilidade indígena em lidar com a natureza do novo continente, suas capacidades guerreiras, e as combina harmoniosamente com a estratégia militar européia e os valores morais cristãos.
            Ele é aqui o que Frederick Turner retrata como a transformação do europeu em americano:

            “O resultado é que, até à fronteira, a inteligência americana deve as suas caracteristicas marcantes. Essa rudeza e força combinadas com a perspicácia e curiosidade que são, por sua vez, prática inventiva da mente, rápida para encontrar expedientes, que se agarram magistralmente às coisas materiais, sem nada no campo artístico, mas poderosa para efetuar grandes fins (...)” (Turner, in “o significado da fronteira na história americana”)

            Significativamente, a despeito de utilizar magistralmente o fuzil, a arma preferida de Benjamin é uma machadinha indígena que ele utiliza com grande violência, relíquia dos tempos das guerras com os franceses; que nos remete ao texto de Guazzelli:

            “O modelo do ‘civilizador’ encontra em Boone a figura típica do fronteiriço, que para superar os selvagens assemelha-se aos mesmos em hábitos, resistência às adversidades do ambiente e exercendo a brutalidade quando necessário, cioso de sua importância para o país (...). Daniel Boone, além de tudo, foi um destacado partisan durante a Revolução Americana: o homem da fronteira era também um dos fundadores da nação americana”. (Guazzelli, p. 130)

            Enquanto frontiersman, Benjamin é superior ao europeu. Três figuras européias da trama retratam isso com clareza: a primeira delas é o coronel William Tavington, responsável pela morte de dois filhos de Benjamin. Tavington é apresentado como um carreirista interesseiro, cruel e sádico; é desprovido de valores éticos; num dos momentos mais dramáticos da trama ele aprisiona famílias de colonos dentro de uma igreja e incendeia o prédio. A representação é evidente: o inglês não tem respeito nem pela vida humana nem pela religião, ambas tão caras ao colono.
            Enquanto Benjamin coleciona vitórias militares a partir de estratagemas criativos (um deles inclui uma troca de bonecos de feno vestidos como soldados ingleses por combatentes da milícia), Tavington somente sabe lutar com extrema brutalidade e covardia, expressa pela absoluta vantagem de recursos militares de que dispõe.
            O superior de Tavington, general Lord Charles Cornwallis, é representado como um aristocrata; fiel à sua origem nobre, Cornwallis também possui senso de justiça e de ética militar; se opõe aos excessos de Tavington, argumentando de forma pragmática: “esses colonos são nossos irmãos; depois que o conflito terminar restabeleceremos o comércio com eles”; mas, ao contrário de Benjamin, que mesmo nos momentos mais difíceis coloca seus valores morais acima das questões militares, o orgulho do lorde inglês fala mais forte que seus valores: diante da humilhação de ser repetidamente vencido por um bando de colonos ignorantes, Cornwallis dá carta branca para que Tavington use táticas genocidas contra os americanos.
            O terceiro europeu é aliado dos americanos, o francês Jean Villeneuve; o filme é mais benevolente com ele, e o personagem inspira simpatia pela maneira atrapalhada como é representado; mas a mensagem é clara: Villeneuve conhece apenas a forma européia de fazer guerra, que no contexto é muito inferior às estratégias de guerrilha indígena conduzidas por Benjamin. O Patriota, a despeito disso, faz enormes progressos ao retratar o apoio francês ao movimento norte-americano; diversos outros filmes retratam o conflito como uma luta exclusivamente entre os colonos americanos e a maior potência militar da época.

            Há outros dois personagens que merecem destaque: o primeiro é um escravo, Occam, que foi oferecido por seu proprietário para lutar na guerra de independência; seu proprietário assim o define: “ele não é experto, mas é forte como um touro”. Occam é discriminado por um colono branco a quem ele vai salvar a vida durante uma retirada; o colono então vai passar a tratá-lo como um igual. Inicialmente obrigado por seu proprietário a lutar, Occam passa a desenvolver um espírito patriótico quando fica sabendo de um decreto de George Washington que ordena a libertação dos escravos que lutem no exército continental.
            Tal como Benjamin, Houcar alegoriza no filme uma dinâmica da própria nação: o processo de incorporação do negro à nação americana. A ele pertence a mensagem de esperança, no final da história; ele aparece à frente de um grupo de homens brancos que constroem a nova casa de Benjamin; em nome do grupo ele diz: “Gabriel disse que se vencermos essa guerra poderemos construir um mundo novo. Decidimos começar aqui mesmo”.  O filme está, evidentemente, representando o mito ideal do nascimento da “nação da liberdade” que é tão caro aos norte-americanos; essa assimilação é na verdade muito posterior à própria Guerra Civil, quase um século depois.
            O outro personagem é o americano que havia se declarado leal à Coroa no inicio do filme; agora alistado no exército inglês como o capitão Wilkins; ele aparece no filme sendo discriminado por oficiais ingleses; Tavington se refere a ele como “mais um da colônia”. No afã de conquistar a confiança dos ingleses ele vai comandar a operação mais infame da película, queimando civis presos numa igreja. Wilkins é aqui a alegoria do traidor; tendo traído a sua pátria, perde seu norte, perde progressivamente todos seus valores morais.
            Finalmente, Gabriel pode ser interpretado como uma alegoria da pureza de ideais da nova nação; sua atuação mais significativa ao longo do filme se dá quando ele recupera uma bandeira norte-americana abandonada no campo de batalha; ele se ocupa de costurar todos seus remendos nos intervalos das batalhas, enquanto faz preleções apaixonadas sobre a nova nação que vai surgir para personagens como Houcar; quando ele é morto Benjamin pensa em abandonar a luta, desanimado. Mas a visão da bandeira restaurada por Gabriel lhe dá forças para voltar ao combate; Benjamin, que até então faz uma luta por vingança, agora luta pelos novos ideais representados pela bandeira; o frontiersman, o americano mais autêntico, adotou agora de corpo e alma os ideais da nova nação americana.

Bibliografia

ADAMS, Willi. Revolucion y fundacion del estado nacional, 1763-1815.

GUAZZELLI, César A. B. Fronteiras americanas na primeira metade do século XIX: o triunfo das representações nos Estados Unidos da América.

LOSURDO, Domenico. Democracia ou Bonapartismo: triunfo e decadência do sufrágio universal.

OLIVEIRA, Lucia. Americanos: representações da identidade nacional no Brasil e nos EUA.

TURNER, Frederick J. O Significado da fronteira na historia americana, 1893.

VINCENT, Bernard. Thomas Paine: o revolucionário da liberdade.






sábado, 16 de junho de 2012

A respeito de um dragão no berço de uma criança


            Ano passado tivemos o prazer de receber o historiador Ilmar Rohloff Matos, autor de Tempo Saquarema, por ocasião de nossa semana de História; num dado momento de sua exposição, enumerando alguns conselhos aos futuros historiadores que o ouviam, ele declarou: “não basta debruçar-se sobre fontes; o historiador deve viajar até o local dos fatos, tomar contato com o ambiente que presenciou os acontecimentos”.
            Concordo integralmente com ele; parece que poucas coisas têm tamanha força de colocar um historiador em comunicação com suas musas inspiradoras como essa presença física no lugar do objeto estudado. A cultura material é na verdade um imenso arquivo de informações sobre sua época aguardando para ser acessado e estabelecer um novo diálogo com o presente.
            Nossa recente viagem ao centro histórico de Petrópolis foi particularmente rica em “acessos” e “diálogos”. O patrimônio observado é tão vasto que transcende nossa capacidade de assimilação. Confesso que algumas conexões só puderam ser estabelecidas vários dias após o regresso; há uma em especial que gostaria de compartilhar com os leitores: por conta do enorme movimento do feriado, nosso grupo foi forçado a fazer um giro acelerado pelo interior do Museu Imperial. Passamos pelos diferentes salas literalmente à toque de caixa, quase sem tempo de assimilar o deslumbramento produzido por peças tão maravilhosas.
            Não foram os grandes ícones do acervo, como as jóias, o cetro e a coroa imperial cravejada de diamantes, no entanto, que me instigaram o espírito; minha atenção foi despertada, na verdade, por dois magníficos berços expostos numa modesta sala do museu; os berços, ovalados, eram sustentados por uma magnífica estrutura, creio que de madeira entalhada; são muito parecidos, a não ser por pequenos elementos decorativos; um destes detalhes específicos é a figura de um dragão alado. No primeiro berço ele é visto apoiado nos pés do berço; no segundo ele encima todo o conjunto, como se seu papel ali fosse velar o tempo todo por seu ocupante.
            A guia nos informou que se tratava dos berços utilizados pelos dois pequenos príncipes imperiais, Afonso Pedro (1845-1847) e Pedro Afonso (1848-1850). Curioso, indaguei a ela a razão do dragão; ouvi em resposta que era um símbolo do poder imperial, associado desde o início da vida à figura do herdeiro da coroa.
            Isso foi tudo. O passeio continuou pelo museu, e seguiram-se dias atarefados percorrendo o centro histórico da cidade. Foi apenas com o esforço de redigir um relatório do passeio, já em casa, que aquele par de berços começou a se revelar; as imagens eram tão insistentes que uma colega espiritualista seguramente veria algum tipo de comunicação mediúnica no que ocorria.
            Houve uma resistência inicial de minha parte nisso tudo. Estava trabalhando num texto que interpretava Petrópolis a partir de uma leitura política e ideológica; pedras e construções expressando o imaginário político, religioso e social. Não havia lugar ali para aquele incômodo par de berços!
            Bom. O fato é que o texto não saía; havia empacado feito um burrico manhoso. Algo que parecia inicialmente tão fácil convertera-se numa batalha de titãs! Deixei então a mesa de trabalho e fui caminhar um pouco, isso sempre me ajuda a clarear as idéias. Nada como caminhar tranquilamente por uma praça tranqüila para restabelecer o contato com a inspiração; isso seguramente vai parecer estranho, mas me ocorreu que o texto estava parado por conta dos berços; algo ali pedia de alguma forma para se expressar. Então propus um acordo a estes manes literários: se eu conseguisse concluir meu texto histórico, reservaria um texto literário para eles.
            Feliz solução! As idéias voltaram a se encadear e pude então expressar uma humilde reflexão sobre o imaginário político das construções de Petrópolis. Salvo o arquivo, e cansado pelo esforço feito, não conseguia, contudo, deixar o computador: meus dedos estavam curiosamente prontos para redigir um novo texto que me chegava à mente aos borbotões, feito uma enxurrada de idéias.
            É, talvez minha amiga tenha alguma razão. Aquilo que captei na aura dos berços e que pedia para se expressar era uma espécie de desabafo, um “por para fora”, o compartilhar de um tremendo drama humano.
            Dom Pedro II não teve o que chamaríamos de uma vida privada feliz; perdeu a mãe pouco depois de nascer, em 1825. Ele então se encheu de afetos pela madrasta, que partiu para a Europa com a renúncia do pai, em 1831. Permaneceu sozinho no Brasil, rodeado de pessoas desconhecidas e pelas intrigas da corte; desprovido de vida familiar e afeto. Alçado precocemente à liderança do país, em 1841 (tinha então 15 anos de idade), foi literalmente enganado e casado por procuração com uma princesa italiana que ele nunca vira antes, em 1843.
            Esse doloroso calvário pessoal conheceu, afinal, um pequeno momento luminoso. Foi então que nasceu Afonso Pedro, em 1845; o sisudo imperador transfigura-se, soluça de alegria e carrega o rebento com orgulho em seus braços. Acompanha-lhe o desenvolvimento e faz menção constante do filho em suas cartas para Portugal; não que despreze as filhas, muito pelo contrário, mas temos que ver a coisa toda a partir do horizonte de seu tempo: o filho varão representa a continuidade da dinastia!
            Então, com pouco mais de dois anos, Afonso Pedro contraiu febre amarela e morreu; o episódio é narrado pelo imperador numa carta à madrasta:

            "Com a mais pungente dor, participo-lhe que meu caro Afonsinho, seu afilhado, morreu desgraçadamente de convulsões, que lhe duraram cinco horas sem interrupção, no dia 4 do passado, e que há poucos dias Isabelinha se achou no perigo dum forte ataque de convulsões que muito me assustou".

            O choque foi tremendo, avassalador. Dom Pedro manteve um retrato do pequeno infante em sua mesa de trabalho até o dia em que foi expulso do Brasil, após o golpe republicano.
            O ano de 1848 trouxe, todavia, um novo rastro de luz; nascia então o príncipe Pedro Afonso. A inversão dos nomes é homenagem evidente ao falecido principezinho!
            Não ficou clara para mim a disposição dos berços, a quem exatamente pertenciam cada um; prefiro acreditar numa ordem cronológica: o mais próximo da entrada é o do primeiro infante, Afonso Pedro; o segundo berço, evidentemente, corresponderia a Pedro Afonso. Isso também faria sentido por conta da disposição dos dragões: no primeiro berço ele está apoiado num dos pés, discretamente; no segundo berço, porém, ele domina todo o conjunto, observa atentamente tudo que ocorre no móvel. É como se a vigilância houvesse sido redobrada: este haverá de vingar!
            Os esforços foram baldados, todavia: Pedro Afonso faleceu com pouco mais de um ano de idade, vítima de febres...
            O dragão simboliza a própria dinastia dos Bragança; aparece originalmente nos brasões na cor verde, com as asas abertas, a Serpe Alada! Assim pode ser vista na base do cetro dourado de Dom Pedro. Os jornais da época diziam que o ramo brasileiro da dinastia também era vítima da “sina dos poucos varões” que a tempos acometia o tronco português.
            O desabafo que senti naquele contato com as peças parecia vir exatamente desse impotente dragão que agora guarda um berço vazio; um misto de decepção e ironia, na verdade; a voz é ácida: “Veja você”, ele diz; tantas análises estruturais, tanto falatório sobre questões sociais e econômicas, o papel dos militares, o papel dos eruditos, e não conseguem se dar conta de algo tão simples, tão humano: o que pôs fim ao Império Brasileiro é o mesmo elemento que acabou com tantas poderosas dinastias no passado, que é a força e ao mesmo tempo o elo mais frágil do sistema monárquico! O príncipe herdeiro morreu! A continuidade natural foi negada aos Bragança no Brasil!”
            “Digam o que quiserem os adeptos das explicações estruturais, mas para o povo brasileiro em pleno século XIX permanecia viva a idéia do imperador como símbolo vivo e encarnação do Estado; tivesse vingado um dos rebentos de Dom Pedro, a ele se estenderiam naturalmente o respeito e o amor intenso que o velho imperador gozava junto a seus súditos. Entraríamos em pleno século XX e sabe Deus quantos Pedros ainda cingiriam uma coroa em terras brasileiras!”
            O discurso do pequeno dragão evoca imediatamente uma outra obra de Petrópolis. Numa pequena praça da Rua do Imperador, Dom Pedro II foi retratado numa estátua de bronze. Está sentado numa cadeira, já bastante idoso; tem um livro na mão esquerda e a cabeça apoiada na mão direita, pensativo. O rosto expressa preocupação, dúvidas. Na ocasião da excursão alguém brincou: “ele está se perguntando como vai salvar o Império”.
            Eu havia concordado, naquele momento, parecia fazer sentido (admitindo-se que o artista de fato o está representando enquanto imperador; a idade avançada pode também sugerir o exílio).
            Agora, pensando no que me diz o dragão bragantino, sou tentado a imaginar que aquela expressão carregada é muito mais de resignação; é como se ele pensasse: “não há mais o que fazer; todas minhas esperanças estiveram depositadas naquele berço. Foi uma perda irreparável; estou agora velho e alquebrado, cansado. Não há ao meu lado o príncipe que me apoiaria e daria esperanças; um estrangeiro jamais será aceito pelo povo. Já nada mais me interessa, e minha inércia é a única força que alimenta os golpistas; bastaria um único gesto firme para que voltassem correndo para seus buracos. Mas para quê isso agora, se a monarquia não tem futuro?”
            O dragão deixou sua ironia mais ácida para o final: “Você esteve pesquisando símbolos republicanos; pois bem, aqui está um que retrataria à perfeição seu triunfo: dois pequenos caixões de cores brancas, pequenos, com o brasão imperial na tampa. Viva a República!”

Petrópolis: o universo de representações como retrato vivo da evolução política brasileira



            A visita a Petrópolis nos abriu as portas para um grande universo de leituras sobre o Brasil, a formação de sua identidade e a evolução político-social. Interessaram-nos particularmente as diversas leituras possíveis a partir do rico conjunto arquitetônico do centro histórico petropolitano, e de como ele retrata o universo de representações de momentos significativos da trajetória política do país, a começar pelo império.
            Petrópolis foi planejada para abrigar o Palácio Imperial de Verão. O projeto urbanístico da nova cidade nos informa ricamente sobre como o próprio Império Brasileiro via a si mesmo: basicamente como uma instituição européia em terras tropicais; a residência de verão é uma tradição muito comum entre as monarquias européias. Magníficos palácios foram construídos com essa finalidade, como o Nymphemburg de Munique, o Sanssouci (feito construir por Frederico o Grande, rei da Prússia), o Palácio Schonbrunn (residência de verão da familia imperial austríaca, em Viena) e o Royal Pavillion (Brighton, Inglaterra), entre tantos outros; a própria família real portuguesa passava o verão no Palácio de Queluz. Petrópolis é uma reprodução dos hábitos das famílias reinantes européias. O próprio clima ameno da Serra da Estrela nos remete de imediato ao clima europeu.
            O palácio de verão atende ainda outras demandas específicas do funcionamento das monarquias européias do período: o retiro sazonal da família imperial para uma cidade retirada onde a monarquia é a líder incontestável é uma forma de preservar a independência do monarca em relação às forças políticas e econômicas que se tornam cada vez mais preponderantes na agitação da metrópole. Não é de se estranhar que em momentos de crise diversos reis e imperadores tenham buscado refúgio em seus palácios de verão; os reis franceses chegaram ao extremo de deixar a capital em definitivo, mudando-se para Versalhes.
            A legitimidade do regime foi, na prática, conferida com a aclamação popular por ocasião de momentos como a Independência e a Maioridade (TORRES). Mas não podemos desprezar os elementos do imaginário que conferem autoridade efetiva ao regime. As referências arquitetônicas à Europa são, nesse sentido, parte expressa de um discurso de legitimação: é a ligação de sangue com as grandes casas reinantes da Europa que confere legitimidade à família imperial brasileira. As construções remetem diretamente aos símbolos da cultura européia de então, onde as monarquias buscam estabelecer alguma forma de identidade com o Império Romano: os motivos greco-romanos, como colunas e obeliscos; o frontispício clássico das edificações, as estátuas e bustos de personalidades. A Europa é o berço e bastião da cultura clássica, a luz civilizadora que se espalha pelo mundo.
            A arquitetura retrata também outro importante elemento de legitimação monárquica: a religião católica, religião oficial do Império (art. 5º. Da Constituição de 1824; cf. EMMERICK). É significativo, nesse sentido, que a despeito de o palácio imperial e as construções dos barões se estenderem generosamente no sentido horizontal, enquanto símbolos de poder terreno, apenas a Catedral de São Pedro tem o monopólio de expandir-se verticalmente, em direção aos céus, marcando claramente seu status privilegiado de poder espiritual.
            A distribuição espacial da cidade retrata as dinâmicas próprias do funcionamento de uma monarquia: o palácio imperial é rodeado pelos edifícios públicos que dão suporte ao funcionamento do governo e principalmente pelas residências das figuras de destaque da Corte; a posição das construções e sua suntuosidade possuem basicamente uma função de ostentação do status que seu proprietário possui dentro da corte imperial. Muito mais que um caráter funcional e utilitário, estas construções atendem a uma necessidade propagandística, são concebidas para “serem vistas”, para alardear tanto o poder econômico quanto o prestígio e/ou proximidade que o proprietário goza junto ao imperador.
            A própria família imperial, nesse sentido, preocupa-se em construir obras simbólicas: a suntuosidade da Catedral dedicada ao padroeiro da monarquia reafirma o comprometimento da instituição com o poder espiritual; o Palácio de Cristal, baseado nos palácios de cristal de Londres e do Porto, procura demonstrar a sensibilidade artística e a modernidade cultural da família imperial.

            Na seqüência vêm o golpe republicano e os governos oligárquicos da Velha República; a família imperial é expulsa do país; a arquitetura de Petrópolis retrata o discurso de ruptura do novo sistema político: o desprezo pela monarquia é visível no abandono em que são lançadas construções como o Palácio de Cristal ou a interrupção das obras da Catedral; algumas edificações, como o Palácio Amarelo ou a Casa do Barão do Rio Negro foram parcialmente descaracterizadas e adornadas com símbolos republicanos, como o barrete frígio (frisos do plenário da Câmara Municipal, no Palácio Amarelo) ou o busto feminino da Liberdade e o brasão de armas republicano de cinco pontas (frente da Casa do Barão do Rio Negro). Os elementos da cultura clássica greco-romana são reapropriados (Grécia e Roma são agora o berço do modelo republicano), bem como elementos do próprio simbolismo monárquico brasileiro, como a representação do Cruzeiro do Sul (agora simbolizando exclusivamente a independência do país). A Rua do Imperador torna-se Avenida Quinze de Novembro; a Rua da imperatriz será agora a Avenida Sete de Setembro.
            Os elementos de continuidade, todavia, também podem ser identificados: é significativo que as obras da Catedral de São Pedro tenham sido retomadas e concluídas ainda durante a Velha República; a despeito do discurso laico, a Igreja Católica seguiu exercendo um papel de grande influência na política nacional. Reproduzindo a tradição monárquica numa escala ampliada, o governo estadual do Rio de Janeiro buscou refúgio na cidade, entre 1894 e 1903, devido à agitação que havia na capital por conta da Revolta da Armada. À exceção de Floriano Peixoto, todos os presidentes veraneiam na cidade.

            Um segundo momento de ruptura ocorre a partir de 1930, com Getúlio Vargas. O sistema político oligárquico entra em crise e há enorme pressão sobre do estado por reformas; o novo sistema republicano, centralista e modernizador, vai buscar sua legitimidade numa experiência centralista anterior; o Império deixa de ser estigmatizado e passa por um intenso processo de idealização, como o período mágico que produziu a independência do país, manteve sua unidade, combateu seu maior inimigo externo e lhe conferiu um longo período de progresso e estabilidade. Pedro II surge agora como o líder paternalista que amava imensamente seu país. Os restos mortais da família imperial, trazidos de volta ao Brasil, são solenemente instalados no Mausoléu Imperial (no interior da catedral), inaugurado pessoalmente por Getúlio Vargas; o Palácio Imperial é transformado em museu e parte do rico acervo de uso pessoal da família imperial é recuperado e preservado.
            Durante o Estado Novo Getúlio passa longos períodos na cidade, acompanhado da família. Os hábitos do ditador trazem à Petrópolis a nova corte do regime: figuras políticas como Amaral Peixoto, João Goulart, Celina e Moreira Franco passam a freqüentar a região com frequência (MONTEIRO), e são seguramente um dos motivos que levaram o empresário Joaquim Rolla a investir na cidade e construir o magnífico Cassino-Hotel Quitandinha, em 1944. Como comenta brilhantemente o professor Pedro durante o passeio, enquanto Dom Pedro quis reproduzir a Europa em Petrópolis, Joaquim Rolla tentou construir aqui uma nova Las Vegas.

            Finalmente, nossa atenção se volta para o presente da cidade. É extraordinário ver um acervo patrimonial tão vasto e bem conservado no Brasil, mas ao mesmo tempo é preocupante esse processo em que os monumentos históricos passam a ser explorados como um produto vendido aos turistas, por diversas razões: a primeira delas é que o “produto” é moldado para atender o público que o consome, e esse processo compromete a análise crítica do acervo; como se verifica facilmente nas falas do guia turístico que nos acompanhou, a ênfase é normalmente posta na idealização do passado, sobretudo do passado imperial; os “personagens-produtos” são essencialmente bons, e sua bondade transparece em atitudes como a da princesa Isabel de convidar um negro liberto para dançar, ou de Getúlio Vargas caminhando tranquilamente pelas ruas e cumprimentando os passantes.
            Ao mesmo tempo o excesso de holofotes postos sobre grandes personalidades, como o imperador ou o inventor Santos Dumont, obscurecem toda a sociedade que está à sua volta, e todas as dinâmicas sociais que dão vida a um determinado período (exceção notável, nesse sentido, é a Casa do Colono, que busca retratar o modo de vida dos imigrantes alemães que construíram a cidade; uma única foto ali preservada, mostrando um garoto negro caçando junto com uma família alemã, é um retrato eloqüente das contradições sociais do periodo).
            Porfim, a demanda por novos “produtos” vai criando uma memória artificial da cidade: a presença da Casa Encantada, por exemplo, serve de desculpa para a construção de uma gigantesca réplica do “14 Bis” (cuja reprodução em miniatura é um dos artigos mais comuns nas lojas de lembrancinhas) ou um monumento homenageando os “heróis da aviação brasileira” na Praça da Liberdade, ou uma estátua de Santos Dumont no Museu de Cera. Uma construção que abrigou uma grande tecelagem no final do século XIX, um dos marcos da industrialização da região, está abandonado e desmoronando, enquanto um gigantesco “Museu da Cerveja” é patrocinado por uma fabricante local que faz um marketing pesado associando o nome da cidade ao seu produto.
            É um problema comum a qualquer grande destino turístico de caráter histórico, como Roma ou as Muralhas da China; nossa preocupação é que isso não ocorra no uso pedagógico ou na produção acadêmica sobre o patrimônio material da cidade: cercear o estudo histórico-social crítico em nome de uma “defesa do turismo” seria um crime. Um exemplo gritante está nos recentes desastres naturais que atingiram a região: longe de silenciar sobre o ocorrido, é imperativo estudar os processos que levam à ocupação desordenada do solo urbano, ou as dinâmicas sociais que conduzem ao poder administrações municipais tão empenhadas em desviar verbas emergenciais quanto em fazer vistas grossas às suas tarefas de fiscalização e prevenção.
            São estudos dessa natureza que produzem conscientização e mudança de paradigmas. Nenhum silêncio complacente vai fazer isso.


BIBLIOGRAFIA
EMMERICK, Rulian. As relações Igreja/Estado no Direito Constitucional Brasileiro. Um esboço para pensar o lugar das religiões no espaço público na contemporaneidade. REVISTA LATINOAMERICANA n.5 - 2010 - pp.144-172
MONTEIRO Ruy.  A República em Petrópolis, Política e Eleições Municipais, 1916-1996.  Petrópolis: Ed. Gráfica Serrana, 1997.
TORRES, João Camillo de Oliveira. A democracia coroada. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1964, p.81

Correlações entre a Revolução Cubana e Populismo




            A primeira dificuldade para estabelecer correlações entre o populismo e a Revolução Cubana reside da definição do primeiro conceito; como esclarece com muita consistência o texto de Maria Helena R. Capelato, populismo é um assunto que comporta visões muito distintas e recortes temporais e geográficos diversos. O curso apresentou nesse sentido um estudo de caso a partir dos governos que sucederam a Revolução Mexicana e o peronismo na Argentina; a partir deste estudo é possível afirmarmos em relação ao populismo:

            São experiências político-sociais que se opõem aos governos oligárquicos, ao ideário liberal imposto pelas oligarquias agro-exportadoras; surgem num contexto de ascensão de novos agentes sociais: a burguesia e as classes trabalhadoras, que lutam por participação no jogo político. A chamada “crise dos arranjos oligárquicos” tem basicamente dois componentes distintos: a incapacidade demonstrada pelos governos oligárquicos em absorver politicamente as novas massas urbanas, e as constantes crises econômicas derivadas do modelo de economia agro-exportadora atrelada à economia mundial e de filosofia liberal de não-intervencionismo.
            O populismo seria, portanto, o resultado de pressões por maior participação política da burguesia e de centralização para acelerar a implantação de reformas que permitissem a consolidação do capitalismo (capitalismo tardio). O Estado torna-se o grande árbitro das questões sociais, que são estabelecidas de cima para baixo.
            É preciso lembrar que a expressão “populismo” surgiu num contexto de crítica às ditaduras personalistas do periodo, apresentadas como autoritárias e com poder baseado num sistema de manipulação das massas, cooptação da intelectualidade, censura dos meios de informação e aparelhamento dos movimentos sindicais. A historiografia recente, no entanto, tem lançado um novo olhar sobre estes governos: Maria Capelato destaca o intenso processo de negociação entre movimentos operários e os governos cardenista, peronista e varguista, onde os trabalhadores organizados surgem não como a massa manipulada normalmente estereotipada, mas como agentes políticos interessados que fazem opções pragmáticas deliberadas, cedendo em relação ao status de liberdade política (que sempre foi uma palavra vazia nos governos oligárquicos) em troca da concessão concreta de direitos de cidadania e de progresso na legislação trabalhista (CAPELATO, p. 152); Francisco Weffort também caminha nessa direção, analisando a idéia de manipulação das massas no varguismo:

“...E ai nos defrontamos com um outro limite fundamental da manipulação, que não teria sido possível se os interesses reais das classes populares não tivessem sido atendidos em alguma medida, sem o que não teria persistido o apoio que prestavam a lideres originários de outras classes sociais.” (WEFFORT)


            O populismo, portanto, se consolida atravéz de compromissos assumidos com diversos agentes sociais: ao mesmo tempo em que é apoiado pela burguesia, por conta das políticas desenvolvimentistas de industrialização, nacionalização de empresas e substituição de importações, recebe o apoio das classes trabalhadoras ao implantar uma legislação trabalhista e regularizar a ação dos sindicatos. O discurso antiimperialista e nacionalista garante o apoio dos movimentos de esquerda.

            A primeira relação que podemos estabelecer entre populismo e a Revolução Cubana é a de que ambos estão inseridos num processo estrutural que ocorre em toda a América Latina de contestação das idéias liberais. Esse processo reproduz a contestação do liberalismo que ocorria na própria Europa, com teses da esquerda e da direita favoráveis à construção de um estado centralizador capaz de dirigir o desenvolvimento econômico e intervir nos conflitos sociais e políticos (CAPELATTO, p. 128).
            Todos estes movimentos tiveram inicialmente um discurso reformista de modernização e contestação dos governos oligárquicos. O próprio Che Guevara declara:

            “Al fin y al cabo Fidel Castro era um aspirante a diputado por um partido burguês, tan burguês e tan respetable como podia ser el partido radical em la Argentina; que seguia lãs huellas de um líder desaparecido, Eduardo Chibas, de unas características que pudieramos hallar parecidas a las del mismo Irigoyen...” (GUEVARA, p. 414)

            Os movimentos evoluem de forma similar; tendo iniciado como movimentos político-partidários, são os vícios do jogo político das oligarquias que vão fazer com que estes movimentos radicalizem o discurso e partam para a luta armada (Revolução Mexicana, Revolução de 1930 no Brasil, golpe militar de 1943 na Argentina, Revolução Cubana em 1959). No entanto, com a ascensão ao poder, ocorre uma distinção clara entre os dois movimentos: os movimentos estudados contêm muitas especificidades, mas nos governos populistas a retórica revolucionária vai ficar restrita ao discurso; muito mais que um governo institucional, há um governo baseado na figura do líder supremo “em contato direto com as massas”. Ocorre a centralização do estado e a modernização da economia, mas atendendo basicamente uma agenda reformista de consolidação do capitalismo. Apenas o regime cubano vai optar por romper radicalmente com o modelo econômico e social e abraçar as idéias socialistas. Che chega a mencionar isso como elemento que atrasou a reação anti-revolucionária: as forças conservadoras estavam habituadas a movimentos com discursos incendiários que sentavam-se à mesa para negociar assim que chegavam ao poder:

            “Nunca lês pasó pó la cabeza que lo que Fidel Castro y nuestro movimiento dijeran tan ingênua y drasticamente fuera la verdad de lo que pensábamos hacer (...) traicionamos la imagem que ellos se hicieron de nosotros”. (GUEVARA, p. 415).

            Florestan Fernandes atribui o radicalismo cubano às especificidades históricas da ilha: a independência tardia em relação à Espanha e a imediata submissão à esfera de influência norte-americana impediram a formação de uma burguesia que investisse na construção de um projeto nacional de caráter liberal; o atrelamento da burguesia local aos interesses de uma potência estrangeira criou a situação incomum de caber às camadas populares a luta nacionalista, e impediu o que ocorria nos demais estados do continente, onde as “revoluções nacionais vitoriosas eram lideradas e freadas pelos estamentos privilegiados dominantes”; enquanto no continente os novos governos limitam-se a uma agenda reformista que privilegia interesses e valores sociais burgueses e à construção de um aparelho estatal nacional, Cuba embarca “na construção de uma ordem social inteiramente nova e socialista” (FERNANDES, p. 12 e 56-59).
            O texto de Florestan permite ainda uma reflexão comparativa com as idéias de Maria Capelato: enquanto a historiografia que se seguiu à queda dos regimes militares (fins de 1970 e início de 1980) realçava os regimes populistas da década de 1930 como os artífices do legado autoritário que desembocaria nas ditaduras, com seu discurso antiliberal e suas idéias direitistas de um regime autoritário que fosse capaz de impedir o avanço do comunismo, a intelectualidade do mesmo período saúda a Revolução Cubana como o fenômeno político mais original e esperançoso do continente, como uma antevisão do futuro comum:

            “Ela não é uma revolução dos “outros” – uma revolução dos cubanos. É o nosso quinhão da história coetânea e contemporânea. Cuba vive, no presente, o nosso futuro de outra maneira”. (idem, p. 07).

            E, como tal, a intelectiualidade é profundamente tolerante com os eventuais excessos do regime cubano:

            “Cuba foi o país no qual as condições difíceis se mostraram do modo mais difícil. Não podemos ignorar os fatos e, se há algo admirável com relação a Cuba, é a forma pela qual a revolução procurou subjugar e ultrapassar os fatos mais duros e adversos. Não se deve ignorar isso, se se quiser compreender, amar e servir à revolução cubana”. (idem, p. 06)

            Como destaca Maria Capelato, a historiografia do final do século passa a ver o populismo com outros olhos, enfatizando o apoio que os líderes populistas tinham dos movimentos esquerdistas e suas relações com as classes trabalhadoras, e o processo em que as intervenções do Estado e as novas formas de controle social logram atender interesses populares, principalmente na forma de direitos, cidadania e conquistas salariais (o salário real dos trabalhadores industriais, na Argentina peronista, cresceu 53% no periodo de 1946 a 1949). Nessa releitura o movimento sindical e os trabalhadores deixam de ser vistos como a massa manipulada e tornam-se agentes políticos ativos interessados num projeto pragmático; as reformas sociais do periodo populista e a maior representatividade política conquistada pelas classes trabalhadoras são na verdade um processo de democratização quando comparadas aos governos oligárquicos anteriores.
            Cuba, por outro lado (e isso é uma análise própria), segue no caminho inverso: o fascínio com a retórica socialista pertence ao passado; o regime cubano funcionou de fato como um regime tremendamente personalista similar às críticas mais ferrenhas feitas aos lideres populistas. A burguesia servil aos interesses norte-americanos cedeu lugar a uma nomeklatura cubana, uma elite de funcionários públicos de altos escalões cheios de privilégios. Os socialistas cubanos foram incapazes de formar uma nova classe de dirigentes, e o velho Fidel é substituído no comando pelo próprio irmão, num cenário onde claramente o espaço democrático é muito restrito.

            Há ainda outra relação interessante entre a Revolução Cubana e o populismo: ambos guardam íntima relação com o processo de intensa industrialização do continente; ambos experimentam processos de nacionalização de indústrias e políticas estatais de incentivo à substituição de importações; as semelhanças terminam aí: enquanto no continente  a ação estatal cria as condições estruturais para que a iniciativa privada realize a industrialização (principalmente financiada por grupos estrangeiros), Cuba vai optar por um processo de estatização da economia.
           

Bibliografia

CAPELATTO, Maria H. R. Populismo latino-americano em discusssão; in FERREIRA, J. (org.). O populismo e sua história. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

FERNANDES, Florestan. Da guerrilha ao socialismo: a revolução cubana. São Paulo: T. A. Queiroz, 1979.

GUEVARA, E. C. Latianoamérica: la revolucion necessária y otros escritos. Cuba :1960.

SAINT-PIERRE, Hector L. A Política Armada: fundamentos da Guerra revolucionária. São Paulo: Ed. Unesp, 1999.

WEFFORT, Francisco. O populismo na política brasileira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.


Nação e Identidade: evolução do discurso nacionalista na América Latina


          Claudia Wasserman faz uma análise historiográfica da evolução do discurso nacionalista e identitário na América Latina, buscando compreender em que condições esse discurso é produzido e quais suas repercussões.
            A autora verifica que desde as lutas de independência, no inicio do século XIX, os líderes políticos e a intelectualidade das terras centro e sul-americanas estão entusiasmados com modelos teóricos vindos da Europa e com o sistema republicano norte-americano. O paradigma europeu é evidente nos escritos de Simon Bolívar (como no exemplo analisado em sala de aula, citando Montesquieu num trecho de “Cartas da Jamaica”), San Martin, Hidalgo e tantos outros. A partir daí cria-se, segundo Claudia Wasserman, o primeiro grande problema do novo discurso identitário: a fascinação pelo discurso europeu é excessivamente subjetiva e idealizada; não há uma percepção da realidade a partir da observação atenta e descompromissada, mas uma interpretação romântica da realidade a partir de modelos ideais; isso vai criar, por exemplo, a convicção de que havia no subcontinente a preexistência de uma comunidade nacional culturalmente identificada anterior à luta pela emancipação, e fazer com que se ignore o intenso processo de pulverização do poder central (localismo) e ruralização que se aprofundam a partir das reformas bourbônicas e vai tornar cada vez mais difícil a aproximação entre as diversas regiões, ou a constituição de uma unidade administrativa estável nas antigas unidades coloniais espanholas (WASSERMAN, p. 102-106).
            Os sonhos de produzir uma sociedade a partir de um projeto liberal, que fosse republicana, democrática, igualitária, racional, industriosa, aberta à inovação e ao progresso resultaram, cinquenta anos depois, em sociedades oligárquicas, dominadas por caciques, morosa, cada vez mais desconjuntada, introvertida, sacudida pela inovação e pelas mudanças produtivas, mas sempre manietada por suas tradições coloniais (CAMIN, p. 14).
            Isso vai produzir um discurso historiográfico e político que busca identificar as causas do “fracasso”; são freqüentes as concepções de nações incompletas e revoluções inacabadas. Há intensa frustração pela não implantação de modelos pré-determinados (situação impossível, uma vez que os construtores das nacionalidades européias são burgueses, enquanto nas Américas a emancipação é liderada por latifundiários rurais). Amparados no cientificismo então em voga na Europa, terra, clima e raça serão consideradas como chaves interpretativas das “deformações, desvios e incompletudes” do processo de construção da nação, dando origem a propostas de “branqueamento” da população (imigração de europeus e extermínio dos indígenas) e de rompimento e repúdio aos valores ibéricos (WASSERMAN, p. 106).
            Embora esse discurso determinista sobreviva até época recente, a partir das enormes transformações que ocorrem na sociedade no final do século XIX e inicio do XX surgirá uma nova interpretação historiográfica focada na questão política. Esse novo discurso é concomitante com o período de consolidação de uma aristocracia fundiária baseada em monoculturas para exportação; em defesa de seus interesses, essas oligarquias fundaram as bases institucionais dos estados políticos latino-americanos, eliminando localismos caudilhescos e centralizando a administração. Predominam então os discursos positivistas de manutenção da ordem; apenas a “ordem positiva” vai criar as condições necessárias para o progresso; é nesse ambiente que frutifica o arielismo, com suas idéias de “emancipação mental” e libertação de modelos estrangeiros (RODÓ, p. 300).
            O discurso positivista se propõe a demonstrar “cientificamente” que os povos latino-americanos eram incapazes de realizar princípios liberais e democráticos e justificar os governos oligárquicos como uma necessidade.
            As intensas transformações deste periodo são o tema do texto de José Luis Romero. O que acontece na América Latina é reflexo da Revolução Industrial em andamento na Europa: os centros industriais são repentinamente assaltados por uma demanda cada vez maior por matérias-primas e pela necessidade de abrir mercados consumidores para seus produtos. Essa dinâmica vai atingir a América Latina exatamente nas cidades que se integram à economia mundial: inicialmente as grandes cidades portuárias, e em seguida as regiões produtoras que vão se integrando à rede de ferrovias que se espalham pelo continente. O rápido crescimento dessas cidades vai produzir uma transformação radical da sociedade: as novas oportunidades atraem habitantes das áreas rurais e imigrantes estrangeiros em grande quantidade; surge um espaço de grande mobilidade social que altera o sistema tradicional de relações sociais (ROMERO, p. 295). Parte do velho patriciado rural soube se adaptar aos novos tempos, aliar-se ao capital estrangeiro e ingressar no novo mundo industrial-financeiro; mas o que garantiu a grande dinâmica do processo foi uma classe de pessoas de poucas posses porém livres das limitações dos hábitos tradicionais e que rapidamente se adaptaram ao novo ambiente empreendedor; partindo do pequeno comércio e da prestação de serviços elas foram enxergando as oportunidades oferecidas pelas novas demandas e em pouco tempo constituíram grandes fortunas. Entrava em cena a burguesia urbana; dona do mundo dos negócios, ela logo disputaria com as antigas oligarquias o controle político.
            É nas cidades que vai tomar forma outro importante agente social: o proletariado industrial. Reunidos em grandes grupos nesse novo ambiente coletivo da fábrica, onde prevaleciam relações sociais despersonalizadas (diferente da relação patriarcal predominante no meio rural), eles logo vão construir uma identidade de classe e se organizar para defender seus interesses (ROMERO, p. 307).
            Nesse ambiente de intensa circulação de idéias e mobilidade social nasce uma nova cultura urbana; os hábitos cotidianos se modificam, a ocupação dos espaços se transforma. A burguesia e o proletariado se organizam politicamente e exigem o direito de intervir na vida política do país.
            A contestação do sistema oligárquico é a tônica do novo discurso historiográfico e político; a crítica da intelectualidade latino-americana é agora contra o modelo de capitalismo implantado pelas oligarquias exportadoras (que cria uma relação de dependência e vulnerabilidade às oscilações dos centros produtores estrangeiros) e pela clausura política por eles imposta (WASSERMAN, p. 112).
            A Revolução Mexicana é um retrato vivo desse momento de contestação do modelo republicano oligárquico, analisado no texto de Hector Aguilar Camin/ Lorenzo Meyer: as décadas de dominação do porfirismo são um exemplo clássico do estado a serviço de grandes latifundiários exportadores. Longe de ser um período de crise, é um periodo de intenso desenvolvimento econômico, que vai produzir dois reflexos distintos:
  • Vai acentuar os problemas sociais, na medida em que a expansão dos latifúndios acaba com as pequenas propriedades comunitárias, o rápido surto de crescimento provoca uma inflação que corrói o salário dos trabalhadores e a valorização das terras provocada pela chegada das ferrovias produz uma onde de desapropriação de terras camponesas.
  • O monopólio do poder exercido pela oligarquia ligada a Porfírio Diaz impede a participação política e a ascensão social da nova burguesia urbana e de setores conservadores que foram alijados do poder.
            A contestação ao regime parte de setores conservadores da sociedade, grandes famílias patriarcais e a classe média burguesa que pressionam por maior participação política. È a intransigência do regime porfirista que vai levar à radicalização do movimento. Como analisa brilhantemente Adolfo Gilly, é uma revolução burguesa que vai mobilizar as massas para ter seu apoio (GILLY, p. 40).
            Estruturalmente a Revolução Mexicana ocorre num período de transição entre dois modelos: a república oligárquica, organizada para atender as demandas dos grandes latifúndios exportadores que estavam se expandindo às custas do sistema indígena de propriedade coletiva das terras (CAMIN, p. 16); e a república burguesa que é necessária para atender as demandas da nova classe de industriais que controla a economia (GILLY, p. 27).
            Nesse sentido, embora cheia de especificidades (como a prematura organização política dos camponeses em grupos como os zapatistas, muito anterior à organização do proletariado urbano), a Revolução Mexicana representa um processo de contestação dos governos oligárquicos e sua progressiva substituição por governos burgueses que ocorrerá em toda América Latina.
            Estes novos governos trazem um discurso vigorosamente nacionalista e de valorização dos aspectos identitários (WASSERMAN, p. 113). A vida política deslocou-se da reunião de algumas famílias para a praça pública; a entrada das massas na arena política não significou, no entanto, democracia: os novos governos são autocráticos e ditatoriais, mas apoiados em amplo apoio popular, sobretudo das classes urbanas, conquistado por meio de concessões sociais e de políticas estatais paternalistas (ROMERO, p. 327).
            O triunfo da burguesia traz consigo uma nova mentalidade amparada numa filosofia do progresso; tudo que se opunha ao desenvolvimento linear e acelerado do mundo urbano e europeizado era condenável (ROMERO, p. 344). A ascensão social não é mais determinada pelo sangue, mas pelo êxito econômico. Tudo isso abre um fosso enorme entre o mundo urbano e o mundo rural, ainda controlado pelos latifundiários, sem mobilidade social e firmemente identificado com os valores tradicionais do catolicismo; sobretudo à medida que o controle político e econômico se desloca do campo para a cidade (ROMERO, p. 334).
            Na década de 1930 a cidade se afirma cada vez mais como um espaço de pluralidade; deixou de ser um conjunto integrado, como o da sociedade colonial, e afirma-se cada vez mais como uma justaposição de grupos de diferentes mentalidades; a nova sociedade multitudinária quebra o velho sistema de normas e valores. As tensões daí decorrentes vão produzir comparações com a Babel bíblica; é no ambiente urbano que o papel feminino na sociedade é contestado, numa revisão constante do sistema de normas sociais (ROMERO, p. 351).
            O discurso historiográfico reflete estas transformações e o pluralismo: o marximo é incorporado como modelo explicativo e como instrumento de luta política (ao mesmo tempo em que revive o hábito de importar modelos prontos) e se fortalece a defesa da aproximação entre os países latino-americanos, que vai desembocar em iniciativas como a criação da CEPAL.

CAMIN, Hector Aguilar. MEYER, Lorenzo. À sombra da Revolução Mexicana: história mexicana contemporânea, 1910-1989.

GILLY, Adolfo /outros autores. Interpretaciones de la revolucion mexicana.

RODÓ, José Enrique. Ariel (fragmento)

ROMERO, José Luiz. América Latina: as cidades e as idéias

WASSERMAN, Claudia. Percurso Intelectual e Historiográfico da Questão Nacional e Identitária na América Latina: as condições de produção e o processo de repercussão do conhecimento histórico


Isis no mundo romano: uma breve síntese historiográfica



            A proposta do tema é refletir sobre a religiosidade no mundo romano a partir das novas concepções historiográficas, da ênfase no caráter multicultural do Império.
            A historiografia sobre o Império Romano mudou de foco nas últimas décadas: a idéia de uma imposição unilateral de valores culturais a partir do centro (romanização) foi substituída pela percepção de que as trocas culturais entre Roma e as regiões periféricas do império se davam numa via de mão dupla; a constatação de que as províncias não eram tão “romanas” quanto se pensava anteriormente logo levou à percepção de que a própria cultura romana foi profundamente influenciada pelas culturas estrangeiras, alterando sua própria identidade cultural; compreender como as influências estrangeiras mudaram a identidade cultural romana tornou-se imperativo para a compreensão da identidade dessa nova sociedade cosmopolita que é gestada no Mediterrâneo (para um debate sobre Romanização ver Woolf 1998; MacMullan 2000 e Hingley 2005)
            O papel da influência grega nesse contexto é bastante conhecido; a fusão cultural é tão intensa que os estudiosos preferem falar em termos de mundo greco-romano (Guarinello 2010), mas está cada vez mais evidente que o Egito teve um papel de grande destaque dentro da cultura romana; a intensidade da Egiptomania romana é revelada pela grande quantidade de achados arqueológicos e pelas inúmeras referências literárias.
            A deusa Isis sempre foi, direta ou indiretamente, central para o estudo das influências egípcias no mundo romano. O novo paradigma destes estudos (Takács 1995; Versluys 2002; Elsner 2006) revela que Isis transcende o aspecto religioso e faz parte de um processo cultural de interação muito mais amplo, colaborando, por exemplo, na construção da ideologia imperial de Augusto (Versluys 2002; Nilo em Tiber); é necessário, portanto, compreeender toda uma dinâmica que determina a escolha pelos elementos a ser apropriados, como são apropriados e o real significado dos novos elementos construídos, da ressignificação.
            O culto de Isis experimentou uma notável expansão dentro do mundo romano, atingindo os pontos mais distantes do império e penetrando profundamente em todos segmentos da sociedade romana, desde a pessoa do próprio imperador e seu séquito, passando pelas elites, como o demonstram a presença de inúmeras capelas particulares dedicadas ao culto de Isis nas propriedades aristocráticas, em Pompéia e diversas cidades romanas e chegando às classes populares, sobretudo aos escravos (WITT, p.60) .
            A historiografia dos cultos egípcios no periodo romano é relativamente recente. O estudo da religião egípcia desperta grande interesse na Europa a partir da expedição de Napoleão ao Egito (1798) e experifmenta grande impulso a partir da decifração dos hieróglifos (1822); o foco dos estudos, no entanto, é a antiga civilização egípcia, desde as origens até o fim do Novo Império. Sobretudo a partir da helenização (305 aC) há um entendimento de que a cultura egípcia perde a originalidade e torna-se decadente. Nesse contexto a expansão dos cultos egípcios pelo mundo romano é vista como parte do processo de “decadência moral” experimentada pelo império; o estigma negativo que paira sobre os cultos egípcios tem duas origens fundamentais: a tradição histórica cristã (que gira em torno de como o cristianismo derrotou as superstições vigentes na época romana e produziu uma revolução moral a partir daí) e a idealização que os autores iluministas fazem da cultura romana, “pura” no periodo republicano e progressivamente “corrompida” na fase imperial com a chegada dos cultos orientais (Gibon, p. 35).
            O estudo metodológico do sincretismo religioso no Império Romano inicia a partir de 1906 com o historiador e arqueólogo belga Franz-Valéry-Marie Cumont, autor do clássico Les religions orientales dans le paganisme romain. Cumont, no entanto, considera o processo de penetração e assimilação de cultos como o mitraísmo, o judaísmo e os cultos egípcios como uma unidade cultural (religiões orientais) em que as particularidades de cada culto são pouco importantes; o próprio fato de uma mesma pessoa atuar ao mesmo tempo como sacerdote de Isis e de Mitra é citado como prova disso.
            As especificidades dos cultos egípcios no mundo romano passam a ser destacadas a partir da reunião metódica de fontes; em 1922 Theodor Hopfner publicou uma gigantesca coletânea de fontes primárias sobre os cultos egípcios, Fontes Historiae Religionis Aegypticae; e em 1940 um estudo comentado do Isis e Osíris de Plutarco. Reginald E. Witt publica a partir de 1971 uma série de trabalhos sobre o culto de Isis, em especial Isis in the Graeco-Roman World.
            Autores como Witt, Tran Tam Tinh e Françoise Dunand chamam a atenção para a intensidade da penetração de elementos da cultura egípcia no mundo greco-romano, algo ignorado até então. O grande volume de estudos leva à realização da 1ª. Conferência Internacional de Estudos Isíacos (1997, Poitiers, França), evento que ocorre com regularidade desde então (2ª. Em 2002, Lyon; 3ª. Em 2005, Leiden; 4ª. Em 2008, Lyege). A nova geração de estudiosos (Laurent Bricaul, Miguel Versluys e Paul Meyboom) analisa o culto de Isis não apenas do ponto de vista religioso, mas sobretudo como chave interpretativa do intenso processo de apropriação de valores culturais egípcios no mundo romano; a representação da deusa Isis surge não apenas em contextos de culto religioso, mas também como motivo cultural e estilístico que remetem ao imaginário sobre o Egito. Essa interação cultural alcança grande amplitude e influencia comportamentos sociais e a própria dinâmica política. Isis está presente, por exemplo, na construção da ideologia imperial de Augusto; sua associação à figura do imperador (Isis Augusta) é uma clara apropriação do papel original de Isis no contexto egípcio, como protetora do faraó (encarnação e/ou representante de seu filho sagrado, Hórus). Essa poderosa inter-relação Isis/Egito vai levar à proposta de padronizar metodologias de estudo e as terminologias utilizadas (MALAISE, 2005).
            Paralelamente a essa inserção de motivos egípcios na cultura greco-romana ocorre o movimento contrário: o culto isíaco se apropria de elementos próprios da cultura das regiões onde se estabelece; isso afeta não só as representações estéticas, mas sobretudo o próprio corpo doutrinário do culto; um destes temas, em particular, se tornaria um dos principais motivos representados nas pinturas murais dos templos de Isis, atrás apenas do motivo principal, a morte e ressurreição de Osíris: o mito de Io.
            Io é uma princesa grega que desperta a paixão de Zeus; isso atrai a ira de Hera, sua esposa, que a transforma em uma vaca, e sua implacável perseguição a obriga a cruzar os mares e se refugiar no Egito. Cansada de seus sofrimentos, Io suplica a Zeus pela morte. Este, comovido, restitui-lhe a condição humana. O mito, narrado por autores como Esquilo e Ovídio, tem imensa popularidade no mundo grego; em sua honra são nomeados o mar Jônico (mar de Io) e o estreito de Bósforo (que significa “pata de vaca”, em referência ao estado animal de Io). O exílio de Io no Egito produz uma imediata associação com Isis. Na reapropriação do mito observada nas pinturas dos templos é a própria deusa Isis quem, comovida com os sofrimentos de Io, lhe restitui a condição humana. As lamentações de Io são frequentemente associadas aos próprios lamentos de dor de Isis durante a peregrinação para operar a ressurreição de seu marido, e conduz a uma mensagem de profundo significado para o culto: Isis, devido ao próprio sofrimento que experimentou, é especialmente inclinada a sensibilizar-se com o sofrimento humano (BRENCK, 2009); este seria um dos elementos que explicaria a rápida expansão do culto pelo mundo mediterrânico. As representações murais sobre o lamento de Io e o sofrimento de Isis em ambientes domésticos e públicos são muito comuns na Grécia e Roma dos séculos seguintes, a ponto de poderem ter influenciado a forma como Paulo e seus seguidores apresentam na Grécia o sofrimento de Jesus, realizando seus discursos em ambientes decorados com estes motivos (BALCH, 2003).
            A epopéia de Io também serviu de inspiração para um dos textos de apologia de Isis mais conhecidos na literatura romana, o romance Metamorfoses (O Asno de Ouro), de Lucius Apuleio, escrito na segunda metade do século II dC; o mote é praticamente o mesmo: o personagem Lucius é transformado num asno por poderes mágicos; nesse estado passa por uma série de desventuras até que decide apelar a Isis para recuperar sua condição humana.
            O interesse moderno pelo culto de Isis cresceu a partir da sugestão de alguns estudiosos, sobretudo R. E. Witt, de que o culto isíaco sofreu um enorme processo de apropriação por parte do cristianismo, numa escala talvez muito maior do que a sugerida anteriormente, principalmente quando se fala das origens da Mariolatria; o assunto tornou-se ainda mais instigante quando escavações arqueológicas recentes na Campânia e diversas regiões da Europa sugerem uma enorme sobrevida do culto em pleno período cristão, e um recurso à violência em grande escala para destruir os locais públicos de culto à deusa (BRICAULT, 2007).

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